A Maldição dos Moderados

O velho mundo está a morrer, e o novo mundo luta para nascer: agora é o tempo dos monstros — António Gramsci, alegadamente

A 29 de Setembro de 2020 o mundo foi gracejado com o evento que porventura melhor definiu a miséria que foi este ano: o Debate Trump vs Biden.

Se este debate fosse um dia da semana, seria Segunda-Feira, se fosse um número, seria o 13, se fosse um sabor de gelado, seria sabor a passas, se este debate fosse um debate, seria ele mesmo.

De um lado Donald Trump, presidente da maior potência mundial, um homem afogado em escândalos, momentos de gritante incompetência, nepotismo e uma pandemia de tal forma mal gerida que ameaça ser o prelúdio a uma guerra civil.

Do outro, Joe Biden, ex vice-presidente dos EUA e possivelmente o equivalente humano a uma bolacha dietética de arroz. Com um aspecto cada vez mais frágil, uma lucidez cada vez mais questionável e uma plataforma política de “ao menos não sou o Trump”, eis a escolha dos Democratas para combater o presidente incumbente.

As duas forças foram opostas uma a outra: de um lado uma cada vez maior forma de política proto fascizante, do outro, um senhor amável a dizer: ao menos eu não sou tão mau quanto este. Neste épico combate do mal contra o assim-assim, todos nós fomos os verdadeiros perdedores.

Este debate não começou verdadeiramente aqui, começou antes em 2016 quando Bernie Sanders e Hillary Clinton mediram forças. Este confronto dialético de progresso (Bernie) vs status quo (Hillary) foi o sinal de partida de que os Democratas tinham finalmente, no seu seio, alguém que representava verdadeiramente o espírito da nova época pós neoliberalismo. Bernie era extremamente radical, com propostas arrojadas como um Sistema Nacional de Saúde, Ensino Gratuito e taxar as grandes empresas, Hillary era comedida e moderada, uma acérrima defensora do que as sondagens lhe dissessem que era popular defender.

Infelizmente, a história ditou que dentro dos Democratas as votações internas não deviam ser sujeitas a atos democráticos e consequentemente, Hillary conseguiu ganhar a nomeação através dos superdelegados (e não só) e finalmente, esmagar os perigos da redistribuição social.

Embora muito se possa especular que Bernie teria vencido Trump, ditou o rumo da história que Trump e a sua plataforma de ódio, fosse capaz de vencer a plataforma de sondagens de Clinton. Muito se pode escrever e falar sobre o que correu bem ou mal, o que devia ter sido feito e ficou por fazer, mas não podemos nunca duvidar: se perguntarmos a Hillary o que aconteceu ela poderá elucidar-nos com a resposta que tenha tido melhor desempenho nos “target demographics”.

O rumo da história não perdoa na sua forma dialética de existir e prosseguir. Dita Hegel que a tese se oporá à antítese e das suas batalhas surgirá a síntese. As últimas décadas de neoliberalismo estão em falência e Trump não é a doença, é sim a resposta que o próprio sistema dá às suas falhas. Uma antítese que nos parece obscena e impensável, mas que não é mais que a manifestação hedionda de um sistema ética e moralmente falhado que estando moribundo, vê o seu corpo ser tomado por tumores.

Mas Trump não é a única antítese à tese neoliberal, Bernie também o é. Bernie foi a resposta humanista à crise do neoliberalismo e da forma como o capitalismo desregulado se devora a si mesmo freneticamente.

Hillary, historicamente e politicamente, foi pouco mais que o incorporar da manifestação histórica da tese vigente. Uma candidata que teria vencido noutra qualquer altura que não fosse esta, mas cuja plataforma não representava nem mudança nem revolução, só e apenas a garantia que tudo se manteria.

Retornando a 2020, os Democratas voltam a estar presenteados com um dilema: Biden (ou Warren, ou Buttigieg, ou Bloomberg, ou Koublachar ou outro qualquer Democrata de marca branca) vs Sanders – Tese contra Antítese retorna para a segunda ronda. Bernie quer redistribuir, os outros prometem um retorno à normalidade. Sanders volta a cair, após uma nada estranha e absolutamente normal vaga de desistências de campanha por parte dos candidatos mais próximos de Biden. O espírito da época é novamente negado, no tempo de quebras, mudanças e renovações, os Democratas querem acima de tudo parar o rumo da história, atirando pedras ao rio esperando que ele mude de curso.

Chegamos a dia 29 de Setembro de 2020. No palco Trump, representante do pior que a falência da época antiga nos pode trazer e do outro Biden, a manifestação da época que vai-se desvanecendo. Nas ruas dos EUA, antifa e movimentos neo-fascistas defrontam-se, polícias combatem civis e são criados novos ódios a cada inocente que é apanhado no meio. No palco, debate-se uma era que não volta, nas ruas, a violência dá à luz o berço onde se deposita o espírito desta nova era.

Esta é a maldição dos Moderados. A maldição das escolhas políticas que ignoram a história, esperando mudá-la em vez de abraçá-la, condenando as populações à cólera da turbulência histórica. A falência do neoliberalismo assinalou um novo mundo que Bernie e Trump souberam abraçar, enquanto que os Democratas ousaram rejeitá-lo.

Trump dificilmente ganhará dizem as sondagens. O mesmo Trump que tinha apenas 1% de possibilidade de ganhar em 2016, tem apenas 3% agora – será, portanto, seguro assumir que chegará para ser eleito novamente?

Os EUA ainda são o polo pelo qual se gira e gere o mundo, o grande emissor ideológico do Ocidente e o Hegémone militar mundial. Um país que moldou o mundo à sua imagem durante e após a Guerra Fria, o país que nos enfiou as “Trickle Down Economics” pela goela abaixo, nos impôs as fraudes de Mises, Hayek e Friedman e que agora, com um mundo à arder, oferece-nos como seu líder uma súmula em forma de pessoa de todos os seus vícios.

Bernie teria sido a perfeita representação do que o mundo pede e necessita no líder do Ocidente, uma visão do mundo com um futuro que o pretendia proteger. Alguém que em tempos de desconfiança política, conseguiu mobilizar uma juventude que tem sido chamada de não participativa, uma sociedade civil que se diz desligada e um eleitorado idoso que se dizia impossível de mover. No entanto, não foi isso que os Democratas viram e desejaram.

E como tal, a Maldição dos Moderados abate-se sobre o mundo sob a forma de Trump e Biden, um a garantia que tudo irá piorar, outro, a garantia que a esperança terá de ficar para outro dia.

A moderação política não pode ser uma abdicação de tomadas de posição e de crenças em objetivos coletivos, sob pena de as derrotas dos moderados serem as vitórias daqueles que almejam destruir a democracia. Em tempos insanos, o político sensato não é aquele que se posiciona precisamente a meio dos problemas e do alto da sua superioridade moral, crítica os dois lados fingindo ser razoável, é antes aquele que tem a coragem de acreditar que há um futuro para lá da eleição que disputa e oferece aos seus eleitores algo em que acreditar que vá para lá do apaziguamento. 

Acabar com a Maldição dos Moderados significa acreditar que é possível fazer política sem abater os candidatos progressivos dos partidos, mas também conseguir combater diretamente os candidatos da retórica do ódio e da divisão.

Henrique Canha

HENRIQUE CANHA

Presidente da Federação de Leiria da JS. Militante do Partido Socialista.

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