A União de Plástico e Papel – Uma Crónica Rosa Salmão

Discurso do Estado da União de Úrsula Von der Leyen (disponível completo em: https://europa.eu/!kU39cM)

Num casaco de fecho, cor salmão fumado, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula Von der Leyen, entrou no hemiciclo do plenário do Paul-Henri Spaak acompanhada pela mão compadecente de David Sassoli, o experiente italiano que preside ao Parlamento Europeu. Subiu no púlpito com um ajeitar de blazer sobre a cintura e dirigiu-se para um cenário de madeira clara e bandeira azul estrelada, que a fizeram esbater-se no enquadramento cénico. Certamente que na super team de assessores pensaram em sobriedade e esperança que não se fizesse refletir na exuberância tradicional dos momentos de gala (como o SOTEU), mas a cor esbatida da indumentária de VdL conseguiu ser humilde demais para ela, ao contrário do não tão modesto azul marinho usado por Vestager..

Quando superamos a tela cromática do SOTEU, mergulhamos no discurso da Comissária Alemã que usa uma oratória pausada (o suficiente) num inglês quase “desgermanizado” e com constantes utilizações de listas de 3 (magical number) adjetivos, numa narrativa pautada por metáforas ligeiras e citações “quase” consensuais que vão gerindo o “tempo” da intervenção.

No quase consensual veio Thatcher, numa manobra de bungee jumping político a citar um super rosto do neoliberalismo económico e conservadorismo social e que foi o maior risco de um discurso predominantemente agregador e que, naquele momento, parecia querer dirigir-se mais para a House of Commons do que propriamente para os habitantes temporários de Bruxelas.

Era para Bruxelas que Von der Leyen falava. Mas fazia-o com uma assertividade de leitura e um bailado de gestos que se articulavam com as pausas estratégicas dos aplausos e que, por momentos, pareciam fazer notar os fios de marionete dos assessores da Comissão a manobrar cada passo de Úrsula. Ao longo de quase todo um discurso lido, os timmings foram evidentemente ensaiados para que VdL estivesse com a face e os olhos dirigidos aos parlamentares. Contudo, discursar sobre o Green Deal e sobre “transição digital” e limitar-se ao uso exclusivo do papel é algo que não convence um qualquer olhar atento que viva no século XXI.

Com a “marionetização” da Comissária, principalmente dos braços, ombros e mãos, ou das expressões faciais, VdL foi quase sempre coreográfica deixando em momentos que precisavam de espontaneidade a ideia de preparação exagerada. Foi assim quando falou do uso de máscaras e simulou a mão na cara ou quando esticou de forma exagerada o braço para exemplificar o cumprimento com o cotovelo parecendo uma nova aluna da escola a tentar ser cool para o grupo de estudantes populares. Houve demasiada utilização destes movimentos e, quando a certo momento do discurso, VdL faz uma deslocação agregadora do braço para o plenário, referindo-se: a todos nós – foi um dos raros exemplos de falhas na coordenação entre a mensagem e a forma do discurso.

Se houve pequenos percalços nos movimentos, a ex-ministra da defesa alemã fez jus ao grau militarizado da sua intervenção, como se fosse um constante movimento de desmontagem e montagem de uma G3, coordenando habilmente o conteúdo e forma da mensagem política, percorrendo, assim, os partidos do arco do poder e fazendo ainda “festas” à  esquerda radical. Os verdes embebidos por percentagens de emissões, os socialistas e democratas com salários mínimos e negociação coletiva, os conservadores com contidas referências migratórias que assumem o right to stay como mais importante do que os human rights. A sombra de Merkel em Bruxelas carregava uma cornucópia de visões políticas para dar e vender, sempre escudada do falhanço que o Conselho, o Parlamento ou um qualquer Estado Membro lhe podem impor.

No meio da inicial e fácil glorificação da saúde como imperativo europeu, viu-se coragem a espaços por entre listagens de supermercado de storytelling que pareciam feitas de plástico. Histórias específicas, como as dos empresários suecos que trocaram carvão por hidrogénio para criar ferro “verde” ou do sucesso de migrantes (que acabou por dar a ideia de migrantes de primeira e segunda), foram parecendo produzidas na fábrica de sonhos dos speechwriters do Berlaymont e pouco no verdadeiro espírito de auscultação dos cidadãos e caixa de ressonância da sua voz tão, supostamente, compatível com a porta de Spinelli.

Mas a Sr.ª Von der Leyen foi ainda muito assertiva e empolgante em dois momentos, em que usou no peito os valores fundamentais da União: 1. “Be Corageous” para se assumir a maioria qualificada no Conselho Europeu; 2. “Being yourself is not ideology is your identity” sobre direitos e liberdades de género e sexualidade. As frases podiam ser feitas, mas foram uma mensagem clara para populismos, fascismos e extremismos. Não existem discursos perfeitos, mas claramente VdL sentiu-se em casa para denunciar e expurgar tiques ditatoriais, “persecu” e discriminatórios. Foi a bandeira mais fácil de empunhar pela Presidente do Colégio parecendo que no fundo da sua história se guardava uma repulsa por cenários violadores dos direitos e liberdades fundamentais.

Foi ainda voz do elenco das discordâncias de política externa, com maior ênfase nas relações tensas com a Rússia. Conseguiu abordar quase todos os assuntos relevantes de vizinhança deixando, contudo, poucas notas sobre China e Estados Unidos que claramente são os maiores contrapesos contemporâneos a uma política externa europeia. A UE como líder, por exemplo, da cooperação internacional, foi patente em todo o discurso. Uma potência normativa, um arranha céus de poder civilizacional. Chega?

No fim do discurso, banalidades frugais e discursos de balneário do campeonato distrital para encerrar um momento de gala da máquina bem preparada de “public speaking” que usou todos os truques dos livros. Sentimos que a alemã nunca vai cair da bicicleta, mas a viagem ainda sabe a pouco. Fica, como dizia uma amiga, uma lista de intenções para ser auditada daqui a um ano e pouco mais. Faltou a reforma da zona euro (a sério), menos propaganda de números que são ainda miragens na aprovação do quadro financeiro plurianual e condicionalismos de financiamento relativos a estado de direito e não só a fraudes empresariais.

A ambição de VdL serve para as portas do Paul-Henri Spaak e para sorrisos rasgados no Mickey Mouse, mas perde-se nos chavões da “transição digital” e do Green Deal, num momento em que as pessoas precisam de se sentir especialmente servidas pelas políticas e não de servir políticos. Não há 5G que ligue a Praça do Luxemburgo às casas das pessoas que dinheiro não têm para comer, nem hidrogénio que possibilite a um paciente ter finalmente a cirurgia por que aguarda desde antes da pandemia. O caminho será longo e a meta está longe, mas a procura de soluções estratégicas de futuro é um compromisso que devemos assumir hoje. Este é o período mais sombrio da nossa história comum Europeia – a crise em stand-by até à chegada do tsunami, no primeiro semestre de 2021, impõe-nos, por isso, uma enorme resiliência e solidariedade num dos combates mais duros pela sobrevivência da União e do espírito europeísta.

O bailado coreografado de VDL dançou-se no papel, onde a forma e o conteúdo da mensagem tão bem casaram. É por isso de estranhar que a maior critica que lhe possamos fazer seja a de ter sido perfeita demais…. Quando assim é, parecemos plástico rosa salmão que se esbate na parede do auditório. Serve para Bruxelas, mas dificilmente servirá para qualquer um de nós.

david ferreira da silva

Com formação e background académico e profissional de Relações Internacionais e Comunicação e Marketing Político, David Ferreira da Silva é um escritor multifacetado que se assume como profissional da política, democrata europeísta convicto e poeta de tempos livres. Viciado em assuntos europeus e cidadania ativa é um dos co-criadores da Praça do Luxemburgo e entusiasta de speechwriting e public speaking.

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