Da apologia do jogo à utopia socialista lúdica

No futuro, quando o socialismo for uma realidade e pudermos dispensar o trabalho desumanizado, porque todos teremos o que precisamos para ser felizes numa nova sociedade verdadeiramente pós-material, o que iremos fazer? Vamos cair na inercia? Há quem diga que sim, influenciado por um conservadorismo que vê o trabalho como uma condenação, longe das fusões entre lúdico e labor que já vislumbramos. Marx dizia que não, que íamos trabalhar de uma forma diferente, longe das lógicas capitalistas.

Na sociedade pós-trabalho não seremos preguiçosos balofos! Seremos, provavelmente, muito mais ativos do que somos hoje, de formas que para já temos dificuldades em imaginar. Por isso tenho de ir mais fundo nesta abordagem, passar aos níveis seguintes. No futuro, se não nos autodestruirmos até lá, iremos passar a vida a jogar. Foi isso que Bernard Suits quis, em parte, dizer na sua obra “A Cigarra Filosófica: A vida é um jogo?”.

Quando não tivermos de trabalhar iremos estar constantemente a jogar, porque, quando estamos a jogar, estamos voluntariamente a fazer atividades trabalhosas, com crescentes graus de dificuldade, pela simples satisfação do envolvimento no processo lúdico e de atingir os objetivos do jogo. Parece absurdo, mas os jogos acabam por ser fins em si mesmos, inúteis e vãos, mas paradoxalmente preponderantes para nos expressarmos como humanos, talvez como formas alternativas de trabalho. Somos animais socias, animais políticos e animais lúdicos.

Suits considera o jogo como algo que aproxima também do hobby, quando alguém decide fazer manualmente, artesanalmente, algo que sabe que vai ter pior qualidade e ser mais caro, mas que faz na mesma pelo simples prazer de fazer essa coisa pessoalmente. Isso poderá ser uma forma simples de jogo. Estes exemplos violam os princípios básicos do capitalismo, da produção pela máxima eficiência e lucro. Capitalizar o prazer destas atividade e experiências não rentáveis é algo que os mercados têm tentado abordar, mas com imensas dificuldades. Ainda assim têm conseguido vender experiências e jogos de forma crescente. Os jogos estão a inspirar também novas formas de trabalhar e de aumentar a produtividade, apesar da sua suposta improdutividade. Sabemos que o capitalismo se irá adaptar ao peso e influência dos jogos, mas dependerá de nós evitar a distopia, em que os jogos nos escravizam em vez de libertar.

Algo igualmente curioso nesta obra da “Cigarra Filosófica” é o seu contexto alegórico. A Cigarra assume-se como um Sócrates consciente a sua condenação. Ela sabe que, por ter passado o verão a jogar em vez de trabalhar, irá morrer no inverno. Mas, tal como Sócrates, está convicta da sua decisão e não se deixa demover pelos seus discípulos, porque a Cigarra vivera fazendo a única coisa que dá sentido à vida. Para a Cigarra uma vida sem jogar é uma vida que não merece ser vivida. E para nós?

Quando Suits escreveu a sua obra, algures pelos finais dos anos 60 e inícios de 70, os jogos digitais estavam apenas a surgir, ainda em formatos muito primitivos. Estes jogos são hoje uma indústria enorme, que representa e movimenta mais dinheiro que a indústria da música e do cinema. Afinal o capitalismo tomou conta dos jogos? Com a substituição geracional, os jogos estão a consolidar-se como cultura de massas, fazendo parte da nossa vida, do dia-a-dia. A geração dos 30 a 40 anos já jogou na sua infância jogos digitais, e teve acesso a muito mais experiências lúdicas que as gerações precedentes. Para as gerações mais novas ter acesso a jogos é tão natural que respirar. E isto começa a ter um impacto social crescente.

Mas hoje, até os jogos analógicos, conhecidos como jogos de tabuleiro, estão a ser reinventados, fruto da busca por experiências de jogo presenciais, únicas e inigualáveis através da interação presencial. São fenómenos do pós-digitalismo e da consciência da materialidade além do materialismo económico. Quer seja nos jogos digitais de multijogador e ou nos analógicos jogados cara a cara, a humanidade expressa-se como animal social, sendo os jogos produtos culturais e formas de expressão individual e coletiva. Os jogos nãos nos têm isolado, muito pelo contrário, eles estão a fomentar novas formas de comunicação e expressão. Quando pudermos passar a nossa vida a jogar, seja em que formato for, estaremos a atingir a utopia socialista, de um mundo de não escassez e de liberdade, uma utopia pós-material onde o valor do jogo vai além das materialidades e assenta na socialização e criação cultural que substituirá os grilhões do trabalho tradicional.

Mas isto levanta também questões ambientais. Poderá o excesso de jogos acelerar a depreciação dos recursos naturais enquanto não atingirmos modos sustentáveis de viver e consumir? Temos urgentemente de encontrar este equilibrio. Os jogos digitais podem evitar a materialidade, mas consomem energia e hardware, redes e afins com elevada obsolescência. Talvez os computadores quânticos evitem isto. Temos também os jogos analógicos mais duráveis, que podem ser partilhados e reutilizados, tal como o desporto que representa manifestações mais físicas de jogos, cuja prática tem uma relação direta com a promoção da saúde. Se os jogos digitais e analógicos podem treinar a mente, o desporto e os jogos mais físicos treinam o corpo. No seu conjunto, os jogos trabalham tudo sem estarmos a trabalhar! A Cigarra, que era um Sócrates lúdico, provavelmente defendia esse princípio Grego de Corpo São e Mente Sã através do jogo.

Os jogos têm imensas virtudes, mas a nossa língua tem um problema, um problema de significados. Defender o jogo em português complica-se porque a palavra esta carregada negativismos, de vício, das apostas e dos jogos de sorte e azar. Também a utopia da sociedade do jogo terá de reconstruir estes significados.  O vício é um perigo, mas se tudo o que necessitarmos de fazer no futuro for jogar, então a utopia destruirá automaticamente esse mesmo perigo, pois nela cada um poderá escolher livremente o seu vício de jogo, sem consequências negativas.

Para além de atividades promotoras da saúde, os jogos são manifestações culturais e formas de arte também. Se pudermos passar a vida a jogar poderemos viver uma vida de novos ciclos, de reinvenções constantes, onde o virtual e o real se confundem, poderemos salvar e recuperar para avançar. Podemos desempenhar vários papeis, ser e fazer o que quisermos sem impacto negativos para nós e para os outros, através de ecrãs ou simplesmente na esfera da imaginação de uma atividade coletiva de olhos nos olhos, construindo significados sobre pequenas peças móveis. Será que precisamos mesmo de ter as coisas ou simplesmente sentir que as temos em períodos passageiros e ambientes controlados? Interessa assim tanto separar a realidade do virtual?

Mas para haver jogos alguém terá de os criar. Então talvez esse seja o único trabalho da nossa utopia. Talvez o único que deva deliberadamente e artificialmente manipular para ser transformado em jogo? Os primeiros jogos foram criados por obrigação ou prazer criativo e artístico? Tudo leva a crer que foi uma manifestação cultural da nossa imaginação, voluntária e natural. Partindo desse princípio então estamos salvaguardados. No futuro, a criação de jogos será um jogo igualmente cativante para quem o desejar fazer.

Para que a utopia não se transforme em distopia teremos de garantir a nossa liberdade, a liberdade de jogar o que quisermos. Mas os jogos garantem isso à partida, porque jogar é forçosamente uma atividade voluntária e livre. Se deixar de ser assim, o jogo irá desaparecer e surgir outra coisa qualquer no seu lugar, algo que provavelmente não nos interessa.

Então e quem não gosta de jogar, qual o seu espaço nesta utopia do jogo? Será um pesadelo lúdico? Nada disso! Alargando o conceito de jogo, até porque teremos ainda mais tecnologia e conhecimento, haverá oferta para todos os perfis pessoais, gostos, tempo e disponibilidade para as mais variadas formas de experiências lúdicas, individuais ou coletivas. Seremos finalmente o verdadeiro Homo Ludens como dizia Huizinga. Não é por acaso que estamos a falar de uma utopia apenas imaginável através do jogo.

micael sousa

Doutorando em Planeamento do Território na Universidade de Coimbra. Co-fundador da Associação Astericos.

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