Da cidadania e os loucos de Hegel

Há, sensivelmente, dois séculos atrás, um célebre filósofo da História defendia que caminhávamos, num movimento dialético guiado pelo “Espírito” racional, para a realização perfeita do fim do universo, a consciência que esse “Espírito” ganha de si mesmo, através de acções de todos nós, enquanto indivíduos, que contribuem para isso inconscientemente, culminando na criação do Estado moderno, encarnação da moral, da liberdade e do racional. À semelhança de Comte e da maioria dos filósofos da História antes da Grande Guerra, Hegel cria na inexorabilidade do Progresso e no triunfo do racionalismo, mesmo que inconsciente, das acções humanas no grande plano que é a História Universal.

Acabada a segunda década do século XXI, olhando para a minha volta, posso dizer: se é o racionalismo que me rodeia, quero ser levado para o mundo dos loucos.

Nas legislativas que levaram António Costa ao seu segundo mandato enquanto Chefe de Governo, o partido de extrema-Direita (ou da Direita Alternativa, Direita anti-sistema, ou qualquer outro termo que seja mais apetecível ao politólogo em questão) CHEGA alcançou o resultado de 22.053 votos no círculo eleitoral de Lisboa. Resultado inédito no Período Democrático português: a Direita à direita do CDS elegia um deputado, André Ventura, para que tomasse lugar na Assembleia da República. As presenças de figuras associadas ao extremismo da Direita não são inéditas no pós-25 de Abril, mas nenhuma delas conseguiu ser levadas a sério: a Spínola, nunca se perdoou a tentativa do 11 de Março; José Pinto Coelho e o seu PNR (ou Ergue-te!) nunca obteve resultados expressivos em qualquer tipo de eleição; Mário Machado, várias vezes condenado, nunca se apresentou enquanto candidato real.

Ultrapassando as questões académicas de se o CHEGA se insere, ou não, no espectro da extrema-direita ou se é, ou não, um partido de índole fascista ou apenas fascizantes, o seu caso não parece ser uma excepção ao que se verifica no âmbito global: falando apenas dos casos mais marcantes, Marine Le Pen alcança a segunda volta contra Emmanuel Macron nas Presidenciais francesas de 2017; Donald Trump vence Hillary Clinton em 2016, para a surpresa de muitos analistas, apesar de não ter vencido o voto popular; Jair Messias Bolsonaro consegue sobrepor-se a Fernando Haddad, no Brasil, em 2018. Um pouco por todos os lados, figuras alheias ao sistema político, mas não a lidar com ele (no caso de Donald Trump), ou suas conhecidas, mas que sempre se encontraram arredados e ostracizados (no caso de Bolsonaro, deputado durante quase 30 anos, e Marine Le Pen, eurodeputada durante 5 e com longa experiência política – mas não de governação!), ganham cada vez mais expressão eleitoral.

Exposta esta conjuntura que nos é muito próxima e real, quero destacar a recente polémica em torno da disciplina da Educação para a Cidadania, da sua obrigatoriedade e do seu currículo. Esta situação, que já valeu uma petição assinada por grandes figuras, nas quais está incluída o deputado eleito pelo PS e antigo Secretário-Geral da JS, Sérgio Sousa Pinto, sintetiza uma das grandes falências que considero que existe no sistema de ensino português, enquanto aluno que fui: nenhum Ministro da Educação dos dois grandes partidos do rotativismo político, PS ou PSD, fez um esforço sério e dedicado para garantir que os alunos da educação obrigatória fossem munidos das armas que lhes permitiria travar, de vez, a ascensão de personagens do tipo André Ventura em Portugal.

As críticas levantadas à disciplina são fáceis de sumarizar: os pontos que compõem o programa, dos quais podem ser escolhidos, talvez como os mais polémicos, a Interculturalidade, a Sexualidade, as Instituições e Participação Democrática, não passam de uma tentativa de doutrinação por parte das forças de esquerda. Críticas estas vindas de figuras como Pedro Passos Coelho, ex-Primeiro Ministro; Cavaco Silva, ex-Presidente da República; Adriano Moreira, ex-Ministro do Ultramar e fundador do CDS; Manuel Clemente, Patriarca de Lisboa; e outras ligadas à Igreja, à Direita política, à Universidade Católica Portuguesa, etc.

Talvez comece a aparecer no chamado “centrão” político a noção de que é necessário haver uma educação cívica para os jovens no ensino, educação essa que não lhes pode ser garantida pelos pais, tendo em conta que, muitas vezes, eles próprios não a receberam, por falência do sistema. Porque são disciplinas como a Educação para a Cidadania (utilizada para esse fim, e não, como foi comigo, para resolver assuntos de direção de turma durante 45 minutos por semana) que garantem a preservação do espírito crítico, e não a sua supressão por currículos escolares compostos por metas de aprendizagens cada vez mais pesadas, forçando professores e alunos a jogar e esbater-se em matérias de forma obsessiva e mecânica, de modo a garantir que foi memorizada (e não aprendida)
informação suficiente para satisfazer os critérios de avaliação dos Exames Nacionais.

Devia ser essa uma das principais metas do nosso PS (para serem, realmente, executadas, e não apenas figurar num programa eleitoral) – o PS dos jovens, que os inclui e preocupa-se em aumentar e rejuvenescer as suas fileiras, mantendo-se em “cima do momento” e procurando dar resposta às novas realidades.

Talvez assim consigamos aproximar-nos daquela marcha racionalista tão popular durante o Século das Luzes. Até lá, é fazer o que se tem feito: não tolerar populismos, nunca deixar de os combater, nunca ficar conformados.

manuel martins

Presidente da JS das Caldas da Rainha. Estudante de História na UNL/FSCH. Fanático da UE, fã de Gorbachev e António Arnaut

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