Na era da tecnopatia

Como Camus, somos todos estrangeiros. Não somos de cá, não somos como os outros, pensamos que ninguém sofre dos nossos males, temos pouca empatia e muita apatia, mas é apenas fruto da falta de cruzamento de dados reais. Vivemos afundados em dúvidas, num sem fim de informação que não captamos, que engolimos sem mastigar e que excretamos sem digerir. Não é este o boom dos ansiolíticos e dos diagnósticos psiquiátricos, nem precisamos de uma abundância de psicoterapeutas catastrofistas, mas precisamos, todos nós, de perceber como funcionamos, para tomarmos consciência de que estamos no mau caminho.

No “Admirável Mundo Novo” de Huxley, o Governo inventou uma droga que alheia as pessoas das suas preocupações, precisamente para que não sejam invadidas por angústias e pensamentos desviantes. Bem se entende que um estado de felicidade constante é avesso à mudança e é um bom instrumento para a estabilidade. No mundo de hoje, neste minuto que passa, não vivemos esse estado de felicidade constante, mas vivemos um momento de alheamento constante. Não nos faltam dúvidas, mas falta-nos tempo para pensar em respostas ou, para o leitor mais atento, falta explorar a dúvida. Vemos séries profundas que consumimos uma atrás da outra, não sobrando tempo para a análise.

Apreciamos filmes românticos e personagens heroicas, mas julgamos todos esses atos patéticos no mundo real. A ficção sucedeu à realidade, e é, agora, nesse campo que vivemos os nossos amores e as nossas aventuras.

Esta era da tecnopatia tem efeitos na política, onde emergem novos atores que conseguem adaptar-se perfeitamente à fugacidade dos tempos. Não acredito que a maioria de nós anseie pela castração química dos pedófilos, reclame a extração dos ovários de quem abortou, ou jubile, sobretudo porque não acredita, com uma IV República muito melhor do que esta. Mas a pessoa de hoje também não se incomoda com estas propostas, porque foi convidada a abster-se de pensar no outro. E, também, porque está frustrada com o Estado.

No entanto, não é capaz de pensar muito a fundo sobre esta frustração “pública”, não é capaz de procurar respostas para os problemas, nem tem tempo para o fazer. A pessoa perdeu o sentido da cidadania, deixando, na prática, de fazer parte do Estado e da camada que se debruça sobre a organização do mesmo.

A resposta rápida não é uma resposta aos problemas, mas é uma solução que encaixa perfeitamente neste mundo de entretenimento fugaz: o escárnio que dá de beber à raiva.

Um populista não tem de apresentar soluções, tem de ser o espelho da frustração e de evidenciar problemas, reais ou percecionados, e de os atirar à cara dos políticos como o palhaço de circo que atira o bolo à cara do outro palhaço. A era da tecnopatia chama por isso, chama por respostas rápidas, respostas de compreensão fácil e extremamente atrativas. Não é que o racismo, o machismo e o populismo sejam novidades na Terra, mas há novas formas e novos instrumentos aos quais os populistas se adaptaram perfeitamente.

Não pretendo, também eu, atirar problemas sem soluções. Posso dar a resposta fácil, mas verdadeira, de que o cidadão precisa de políticos que descompliquem. Porém, a resposta não deve ficar por aqui. Não podemos esperar que se descomplique, com fidelidade, a explicação duma reforma financeira ou, por exemplo, a venda de ativos tóxicos do Novo Banco. Há medidas que são, efetivamente, complicadas. Tão pouco devemos utilizar profecias miraculosas que desiludem o cidadão e que o tornam na tal pessoa apática e propensa a acolher personagens populistas. Por outro lado, descomplicar não significa fazer uma figura forçada no instagram e aparecer a dizer “tipo”, “ya” ou “bue”. As pessoas não são parvas, estão só apáticas. O que precisamos é de descomplicar a justificação dos resultados que pretendemos alcançar e, assim, tornar mais compreensíveis as medidas que tomamos.

Descomplicar implica, em primeiro lugar, dizer a verdade. Significa tratar o povo com maturidade, percebendo que ele faz parte da solução, dizendo-lhe que sim, que o seu dinheiro está a ser utilizado para fortalecer o serviço nacional de saúde; que sim, que o seu dinheiro serviu para injetar dinheiro nos bancos; ao invés de se optar por uma explicação desviante e complicada em que o cidadão é levado a pensar que, pela falta de frontalidade, o estão a tentar enganar. Descomplicando o sim, poderemos focar-nos no porquê, convidando o próprio cidadão a pensar qual o Estado que quer ajudar a construir.

joão maltez

Estudante da Faculdade de Direito de Lisboa. Foi coordenador da Federação de Estudantes Socialistas de Lisboa. Atualmente é Presidente da Comissão de Jurisdição da Federação da Área Urbana de Lisboa da JS.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s