Os movimentos (pouco) independentes

Contrariamente ao que antigamente se comentava no café, entre cervejas, amigos e partidas de snooker, e que hoje em dia se faz no facebook, fazer política não é nada fácil. Aliás é por haver políticos que genuinamente acreditam que lidar com pessoas é muito fácil que temos muita mediocridade e incompetência na política.

Convém que os políticos se comecem a defender dessas e de outras acusações mais graves porque, pelo menos neste caso, quem cala certamente consente.

Os partidos servem para ser escolas não do crime (calma, Ventura!) mas sim de como fazer política, isto é, como liderar pessoas, gerir expectativas, solucionar problemas, ter capacidade de conciliar posições inconciliáveis, entre outras coisas. Esse é um dos motivos principais para a existência de partidos no nosso sistema político, no entanto, há outro motivo que frequentemente passa despercebido mas que é fundamental: a accountability/responsabilização dos eleitos.

Há uns anos, o sistema político abriu as portas aos movimentos independentes. Só que a realidade é que ideia da existência de movimentos independentes é boa de longe mas longe de boa. Aquilo que, em teoria, seria um movimento de cidadãos apenas interessados no bem da comunidade independentemente das suas convicções ideológicas é na prática tudo menos isso. Para além de, em muitas situações, estes movimentos serem meros projetos pessoais de poder da parte de pessoas que até já estiveram em partidos políticos mas que, por este ou aquele motivo, não conseguiram atingir o seu objetivo de chegar ao poder, os movimentos independentes falham redondamente pelo facto de partirem de uma premissa mentirosa: a de que as decisões políticas não têm que ser ideológicas. A verdade é que todas as nossas decisões são mais para a esquerda, mais para a direita, mais autoritárias ou mais libertárias.

Para além disso, os eleitos independentes têm pouca responsabilização pois tendem a não estar sujeitos a nenhuma estrutura como as que os partidos têm em que os eleitos têm que se ir justificar pelas decisões tomadas aos outros militantes.

Já ouvi várias vezes que nas autarquias a ideologia não importa, pois bem eu digo que quem diz isso tem vergonha de se descrever ideologicamente. E não há que ter vergonha. Ser de direita é tão legítimo como ser de esquerda.

Fazer política é muitíssimo mais do que emitir um parecer técnico, uma ordem administrativa. Concordemos ou não com as suas decisões, habitualmente, quem lidera, como um primeiro ministro ou um presidente de câmara, são pessoas com experiência política. E a realidade é que, embora isso também aconteça por vezes nos partidos, os movimentos independentes aumentam a probabilidade de termos eleitos que nunca geriram pessoas, nunca debateram nada com ninguém, nunca esgrimiram argumentos à frente de 100 ou 200 pessoas bem atentas ao que se está a dizer.

Em jeito de resumo, fica igualmente a questão: os movimentos independentes são independentes do quê e de quem? Da sede de serem poder não é certamente, aliás, os movimentos independentes (salvo alguma excepção que admito desconhecer) parecem sempre nascer pela mão de alguém que tinha demasiados entraves para ser poder dentro de determinado partido e por isso decidiu criar a sua plataforma para ascender ao poder. Estes movimentos não só me parecem muito pouco independentes como até me parecem bem mais imprevisíveis que os partidos, já que os partidos podem, por vezes, ser descaracterizados por pessoas com interesses diferentes da ideologia do partido em causa mas, mais tarde ou mais cedo, serão recolocados no caminho adequado, em termos ideológicos.

A luta interna partidária, dentro de um limite de razoabilidade, é saudável e defende-nos de unanimismos perigosos. Nos Partidos Independentes, como prefiro chamar a esses movimentos, essa luta interna parece estar sempre limitada à vontade de líderes supremos e isso é, no mínimo, assustador.

raul testa

Adjunto da Presidente da Câmara Municipal da Marinha Grande, Licenciado e Mestre em Direito pela Universidade de Coimbra. É fundador da Asteriscos Leiria e defensor de inúmeras causas.

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