Saúde mental e capitalismo no século XXI

A degradação da saúde mental é um dos principais flagelos que assola grande parte da população ao nível mundial. Portugal não é exceção; o nosso país é o quinto, no conjunto da OCDE, que mais consome antidepressivos e ansiolíticos.

A saúde mental funciona como génese do bem-estar geral de cada ser humano, sendo fundamental no modo como nos entrosamos ao nível comunitário e em como estabelecemos relações humanas na sociedade. Nos dias que correm, no nosso país, parece que falar de saúde mental é tabu e que este é um não-assunto; nada mais errado.

De acordo com o primeiro estudo epidemiológico nacional de saúde mental realizado em 2013, pela Direção-Geral da Saúde, um em cada cinco portugueses sofre de doença mental. No ranking das doenças que mais contribuem para a incapacidade do trabalho, as do foro mental apresentam-se nos primeiros lugares.

Se ninguém o fez antes, é a altura de nós, enquanto jovens e membros de uma sociedade civil que se quer forte, combatermos a ideia de que a doença mental é algo de índole individual, que não o é, mas antes causada pela sociedade; se a uma sociedade doente juntarmos uma pessoa vulnerável sentimentalmente, com fraca capacidade de superação, sem sentido crítico e perdido na busca de um projeto de vida, temos todos os fatores conjugados para que este indivíduo se afogue em antidepressivos e ansiolíticos, para que deixe de trabalhar e para que se comece a sentir como um fardo.

É tudo isto que devemos combater e falar sem rodeios, pois apenas quando soubermos dar a mão a estas pessoas começaremos a deixar de ser uma sociedade doente, que o somos.

Podemos encontrar a justificação para o surgimento das perturbações mentais numa pessoa na sua vulnerabilidade emocional, conforme já foi dito; não obstante, devemos procurar outros fatores predominantes que fomentam essa mesma vulnerabilidade. O sistema económico em que vivemos é, seguramente, um dos principais responsáveis por este fenómeno. A vulnerabilidade de um vínculo precário, por exemplo, influirá de modo negativo no indivíduo, levando a que este sentimento seja transposto para o campo mental. O facto de as entidades patronais continuarem a não acreditar, mesmo com estudos científicos que comprovam o contrário, que jornadas longas de trabalho não se traduzem necessariamente em mais produção, não deixa tempo para que o trabalhador (sim, trabalhador, e não colaborador) construa relações sociais fortes e que desenvolva o seu espírito crítico e criativo, tão importantes que são numa saúde mental saudável. A ansiedade ou o burnout são algumas das consequências para as pessoas que trabalham demais e que já não conseguem distinguir a vida profissional da vida pessoal. Deste modo, a pessoa com doença mental jamais irá alcançar estabilidade na sua vida profissional; não tendo trabalho, as perturbações mentais funcionarão como entrave à busca de emprego. De acordo com Pedro Pita Barros, é em períodos de recessão económica que as taxas de suicídio disparam.

Em suma, o sistema capitalista procura, por todos os meios, ter os seu trabalhadores sempre disponíveis, nega-lhes o direito de desligar do trabalho e intromete-se na vida pessoal e familiar do indivíduo, tudo isto, muitas vezes, e conforme já foi dito, por um vínculo precário, por um trabalho temporário, por um trabalho que não realiza a pessoa em questão e que “apenas” o desempenha porque precisa de ter uma fonte de rendimento.

Precisamos de um Estado-social forte, que olhe para estas pessoas e lhes dê a devida proteção – ao nível laboral, ao nível da prestação de serviços de saúde e da educação. Defender e proteger a saúde mental não passa apenas por apoiar e implementar planos específicos, mas antes pelo fortalecer do Estado providência que esteja junto dos cidadãos nos seus momentos de vulnerabilidade, que nos dê uma resposta onde todos apenas temos questões, que encete reformas laborais que faça os trabalhadores sentirem-se motivados para produzir e que fomente a capacidade criativa e de inovação.

rui tomás

Presidente da Juventude Socialista da Marinha Grande. Licenciado em Jornalismo pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

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