Um enxoval prá menina e pró menino

Existe ainda um longo caminho a percorrer. Estamos no século XXI e Portugal ainda se encontra aprisionado num modelo patriarcal. O drama dos presentes das mulheres Portuguesas nos seus aniversários e nos natais.

Antigamente, preparar um enxoval era prática tradicional nas famílias portuguesas. Ter um enxoval significava ser uma boa esposa e uma verdadeira dona de casa. Depois de terminadas as tarefas domésticas, as avôs e mães bordavam toalhas e lençóis para oferecer às suas filhas no dia do seu casamento. Até lá, guardavam estes objetos religiosamente em arcas ou baús. Pela altura dos aniversários, ou pelo Natal, era normal as raparigas receberem mais um artefacto para juntar ao seu enxoval. É quase como dizer atualmente: “Ah queres um telemóvel? Ou maquilhagem? Nada disso. Recebes um livro Pantagruel para aprenderes a fazer um Bacalhau à Gomes de Sá”.

Na altura, a prática de receber peças para o enxoval – ou o dito – era normalizada e acarretava um simbolismo maternal muito grande. Muitas famílias não tinham meios, mas esforçavam-se para criar o melhor enxoval possível para as suas filhas. E este era a melhor prenda e o melhor tesouro que lhes podiam dar.

A preparação de um enxoval tem caído em desuso. As avós e as mães têm de conciliar os seus deveres laborais com os deveres domésticos… e também existe televisão com todos os seus fantásticos programas do Goucha, da Cristina e do João Baião.

Muitas mulheres vêem o enxoval com uma carga emocional negativa, pois evoca a “dona de casa”, conceção essa pela qual lutam todos os dias. Não que não queiram ser fadas do lar, mas sim porque querem ser mais do que isso: querem uma identidade para lá do avental e das colheres de pau.

A minha avó materna e algumas amigas da minha mãe costumavam oferecer-me toalhas de mesa/panos de cozinha com bordadinhos à volta quando eu era mais nova. Fazia aquele ar enfadonho, mas agradecia sempre a atenção. As peças estão religiosamente guardadas numa caixa adquirida para o efeito, onde provavelmente um dia serão úteis. O meu irmão mais velho nunca foi presenteado com estes artigos, pois lá está (ideia pré-concebida): “o enxoval é prá menina”.

Admito que nunca gostei de receber estes presentes. Se até certa altura disfarçava, atualmente faço mesmo questão que se apercebam do meu descontentamento. Para além de uma tradição completamente ultrapassada, é demasiado machista, pois só é oferecido às mulheres. Ademais, a maior parte das vezes recebe-se objetos que não gostamos ou que são démodé. Ah e tal é “Vista Alegre”. Ah e tal é uma marca “Upa upa”. Ok, não deixa de ser piroso.

E que fique claro não sou contra receber estes objetos. Sou contra a ideia que isto é apenas incumbência da mulher e só é prenda para Elas. Se dá jeito receber umas toalhas aqui e umas frigideiras acolá? Claro que sim. Muitas vezes dou por mim a pensar se não seria melhor ir comprando um jogo de lençóis ou um serviço de louça, mas prefiro colocar o dinheiro de parte (no mealheiro de “quando puder comprar uma casa, pois agora as pessoas pensam que ganhamos todos muitaaaaa bem”) para efetivamente comprar algo que goste na altura e, na eventualidade de me juntar com o meu companheiro, ser uma tarefa… dos dois.

Há pouco tempo, pelo meu 28º aniversário, recebi da família do meu namorado artigos para a casa (panelas de pressão, Silampos e um Pirex). Não mostrei contentamento, mas agradeci. E eis que ouço “o meu neto gosta muito de carne assada. Mete-se no pirex um pedaço de lombo, vai ao forno e fica bom”. O meu pensamento? “Então, mas o Pirex é para mim ou para seu neto?” ou “E oferecer a ELE um Pirex?”.

A questão é precisamente esta: quantos homens recebem peças do enxoval? Vá, digam! (PS4 não está incluída). Uma grande parte nem sabe para que serve o “Pronto” (já testei). Já nem digo estrelar um ovo, porque isso admito que exige alguma ciência.

Cada mulher tem os seus gostos e as suas paixões muito além de panelas de pressão, pirex ou serviços de louça. Tal e qual como os homens têm os seus. A única diferença? Não recebem atoalhados pelo natal ou pelo aniversário, mas sim casacos (quentinhos), pijamas, livros ou gadgets e outras coisas bem mais interessantes.

Numa sociedade que se quer desenvolvida e que paute pela igualdade de género, não devia ser o dever do casal constituir o lar, em vez de apenas e só da mulher? Não deveríamos educar os nossos filhos e filhas para a partilha das tarefas domésticas e das responsabilidades familiares?

Para finalizar: pode parecer que estou a desconsiderar um costume que em tempos tinha uma carga emocional e sentimental muito forte. Nada disso. Para dizer a verdade, considero verdadeiramente enternecedor o ato de fazer e personalizar o enxoval com o que se tem e o que se pode para as pessoas que amamos. No entanto, a sociedade atual já não é igual àquela de há 30 anos. Apesar de útil, esta prática tornou-se obsoleta e tem de ser adaptada aos dias de hoje: o enxoval (e o resto) é prá menina… e pró menino!

PS: a autora deste artigo não recebe por #PUB. Mas pode vir a receber (😉 😉)

Bárbara Gonçalves dias

Bárbara Andreia Gonçalves Dias tem nome de Artista Pimba, mas ficou-se pela Engenharia do Ambiente. Nascida no Vale da Amoreira e criada na Baixa da Banheira, acredita que cada um pode e deve querer ser mais do que as regras da sociedade impõem. Pespineta de berço, Republicana e defensora radical da Liberdade e da Igualdade. Defende as Mulheres com garras e dentes, mas não gosta de se autointitular como “feminista” porque considera que a luta pela igualdade de direitos (e deveres) tem de ser defendida por e para todos os géneros e não pode ser polarizada. Escuteira por teimosia, amante da natureza. Há anos que defende que todos temos de fazer a nossa parte para cuidar da nossa “casa comum” (before it was cool). Entrou para a Juventude Socialista e para o Partido Socialista em 2013 e desde aí que se vê sem agenda, porque há sempre uma atividade para organizar, um comício para marcar presença ou uma causa para abraçar.

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