Como fazer frente a um populista

Desde 2016, com o referendo do Brexit e a eleição de Trump, que o termo populismo se entrincheirou no discurso político, banalizando-se rapidamente ao ponto de quase perder significado. É, contudo, essencial não perder de vista o conceito de populismo, sob pena de se banalizarem ventos políticos que põem em causa a democracia e o Estado de Direito.

Um populista é um demagogo, mas um demagogo não tem de ser populista. A demagogia faz – sempre fez – parte do jogo político, que se alimenta da retórica e de confrontos ideológicos através do debate. Com isto, não pretendo advogar em favor da demagogia; é uma técnica com perigos, porque é manipuladora de sentimentos com propósitos ou pouco esclarecidos ou desvantajosos/penosos para os cidadãos.

Essa manipulação foi há muito retratada numa imagem descrita por Sócrates a Polo e Cálicles, que dava conta de um julgamento de um médico num tribunal de crianças, acusado por um cozinheiro. Esse cozinheiro construiu o seu caso dizendo que o médico faz mal às crianças, uma vez que as deforma, cortando-as e queimando-as e dá-lhes de beber remédios amargos; tudo o contrário daquilo que faz o cozinheiro, que mima as crianças através de iguarias deliciosas e variadas. O auditório de Sócrates admite que, perante esta manipulação, de pouco serviria ao médico defender-se no interesse na saúde das crianças. O cozinheiro fez demagogia.

Um populista normalmente é popular, mas um político popular não é necessariamente populista. Um político popular é um político gostado pela maioria ou por um grupo alargado.

A popularidade, enquanto característica, é neutra. Pode-se dizer que um partido é popular porque ganhou as eleições, assim como se pode dizer que um político é popular porque a maioria lhe dá confiança.

Um populista é um manipulador mentiroso; utiliza factos falsos, sabendo da sua falsidade, para enganar e manipular. Essa manipulação apela ao lado emotivo das pessoas, por oposição à razão, frequentemente através de maniqueísmos: eles, a elite ou minorias, contra ‘nós’, os verdadeiramente oprimidos. É por isto mesmo que os populistas exploram as fragilidades das instituições, para extrapolarem injustiças que encontram reflexo emotivo nas pessoas. As soluções apresentadas por populistas passam pela secundarização sobretudo dos direitos de liberdade (das minorias) e pelo sacrifício da igualdade.

Como fazer frente a um populista?

É imprescindível robustecer e fortalecer as instituições, de forma a proteger o Estado de Direito de que elas são os alicerces. É frequente os populistas buscarem um sentimento generalizado de corrupção para evidenciarem a suposta podridão do sistema. Assim, é essencial ter meios de prevenção e repressão da corrupção eficazes e eficientes. O robustecimento destes meios não se repercute imediatamente no sentimento generalizado de ausência ou menor corrupção. É um investimento necessário, mas a médio e longo prazos, do ponto de vista do conforto da perceção das pessoas.

Assim, de forma a desmascarar e desconstruir um populista, são precisos dois passos adicionais.

Em primeiro lugar, é preciso desmascarar a mentira com a verdade. Tal como a fictícia Frente Popular Judeia, através do diálogo e do debate, se apercebeu que era falsa a perceção de que os romanos nada fizeram por eles, também o auditório dos populistas deve questionar as mensagens recebidas e testá-las.

Em segundo lugar, é preciso também apelar à emoção. Se, de facto, há fundamentos para um sentimento de injustiça comum às pessoas, essa emoção deve ser explorada, sob pena de ser deixada em exclusivo aos populistas. Porque se o exclusivo da sua exploração é dos populistas, as soluções serão também exclusivamente populistas e não têm de o ser.

É essencial que no discurso político, feito por políticos, jornalistas e comentadores, se tenha presente a responsabilidade na utilização destes três conceitos, sob pena de se minar os mais bem apetrechados para combater populistas.

Gonçalo Fabião

Jurista.

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