Diário de um racista não-racista

Eu já disse que não sou racista. Eu tenho amigos pretos, eles frequentam a minha casa como se fosse família. Na verdade, quando olho para o Vander nem penso que ele é preto. Até porque ele é um preto diferente, é o preto mais branco que conheci.

Ele dá-me cá uma graça, principalmente quando ele próprio faz piadas sobre ser preto. Ficamos a rir minutos a fio, até eu me sinto à vontade para fazer piadas, assim tipo dois irmãos. Não percebo como podem dizer que Portugal é um país racista.

Quer dizer, claro que há algumas pessoas que são racistas, não é? Mas assim “racista, racista” de andarem aí a bater neles ou de recusar a apertar a mão, isso não acontece assim sempre. Comos nos EUA, mas a nossa realidade é diferente. Tenho pena, se calhar por um lado se eles se misturassem mais não haveria tanto ódio. Olha, como o Vander, por exemplo! Se há coisa que gosto nele é que ele não se vitimiza, tipo a Marília. No outro dia estávamos a conversar, e ela falava que ninguém lhe dava emprego por causa da cor da pele dela. Eu lá lhe disse um “pois”, mas, quer dizer, eu acho que tem mais a ver com o CV dela do que com o tom de pele. E depois ela insiste em ir para as entrevistas com aquele cabelo ─ atenção, que eu adoro e estou sempre a tocar nele, até porque nem é aquele cabelo que parece que está sempre despenteado ─ mas já lhe tentei dar a dica de que o cabelo liso dá sempre um ar mais profissional e que a imagem conta muito!

Mas por falar em cabelo, não dá para aguentar a fofura que é a filha da Marília! Não sei porquê, mas aquelas criancinhas têm um encanto especial. Emociono-me sempre quando vejo as fotografias da Vanessa que foi para África fazer voluntariado. Coitadinhos, aquilo dá-me um aperto no coração. Aqueles governos corruptos deviam ter vergonha! Países tão ricos, com petróleo, diamantes… é que têm tudo, é uma terra abençoada! Bem diz o Manel que destruíram Angola, antes de 75 aquilo era o paraíso e até bem mais desenvolvido que a antiga metrópole. E ele diz que conviviam todos juntos, pretos e brancos, não havia cá distinções. Mas enfim, agora uma pessoa não pode andar a dizer estas coisas assim que qualquer coisa já é racismo.

Familiar? Este texto foi escrito com base em argumentos que tenho ouvido do bom português que enche orgulhosamente o peito para dizer que não é racista. É um privilégio este, o de se poder dormir descansado porque não se é racista. A questão é que a receita para esta boa noite de sono inclui não pensar o mundo. “Mas é preciso questionar tudo?” perguntava a minha mãe numa outra conversa.

É, mesmo que isso nos deixe doente dos olhos. É que quando questionamos, talvez percebamos que quando olhamos para o Vander temos mesmo de não esquecer que ele é preto e que se calhar ele antecipa as piadas para ficar menos constrangedor. E que ele não é um preto diferente, mas que a representação dos negros nos media é tendenciosa ou que talvez ele esteja a tentar “ocidentalizar” o seu comportamento para ser aceite. Talvez percebamos que ir para África tirar fotografias com os pretinhos é uma falta de respeito para com as crianças e seus cuidadores. Talvez percebamos que os sistemas corruptos se mantêm com a contribuição dos tais desenvolvidos, que deixaram sistemas políticos frutos do jugo colonial, e que no tempo do colono havia sim distinções que são difíceis de reconhecer quando estas nos beneficiam.

Talvez percebamos que no nosso país não é diferente, é igual ou pior. É o racismo paternalista, “o que até tolera pretos, mas ciganos é que não”; é o racismo do “demos novos mundos ou mundo” quando na verdade invadimos e destruímos o que já existia; é o racismo de achar que “já não faz sentido falar da escravatura, porque temos de olhar para a frente e não podemos viver no passado” quando o silêncio só invisibiliza dinâmicas no presente.

Mas para perceber é preciso pensar e pensar incomoda como andar à chuva, sobretudo se nos obriga a reconhecer o privilégio de se nascer branco num mundo que é branco por defeito.

Antea Gomes

Licenciada em Relaçoes Internacionais pela Universidade de Coimbra, trabalha na área da cooperação para o desenvolvimento em Angola desde 2017. Apaixonada pelos mundos e suas pessoas, gosta de reflectir sobre os ismos da actualidade e o que se pode transformar através da voz.

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