As lições de Orwell e da sua Quinta dos Animais

O Triunfo dos Porcos de George Orwell não é apenas uma crítica circunscrita à ditadura soviética e ao Estalinismo. É um tratado sobre como os sonhos de uma sociedade melhor se tornam utopias quando os homens-porcos tomam conta dos privilégios e do poder.

Por muito que os clássicos anti-comunistas usem o exemplo da Quinta dos Animais, o próprio Orwell assumiu os progressos e os valores da Rebelião, antes dos tiranos tomarem o poder pela força e iniciarem um regime de opressão, anulando todos os valores de solidariedade que deram origem ao movimento.

E outra lição que o livro de Orwell nos deixa, para quem quiser interpretar as suas palavras além das margens da literalidade, é que todos os sistemas políticos caminham, de alguma forma, para o triunfo de algum porco. Afinal, que foram as revoluções liberais, senão a união de todos os “animais” contra o sistema feudal, prometendo igualdade, liberdade e fraternidade? E, como sabemos, muito rapidamente a burguesia deixou os desígnios do povo de fora das suas prioridades e, mais uma vez, tomou o poder e os privilégios.

Hoje, os porcos ainda triunfam, mas parece-me que nenhum outro animal da quinta se tem permitido ceder, com tanta passividade. Ao fim de tantos anos a serem enganados, e depois de finalmente interiorizarem as lições da liberdade de ação, expressão e pensamento, a reação tem chegado e a quinta está em mudança.

E, por muito que, – e acredito imensamente nisto – , as classes política e empresarial estejam também em transformação e a procurar responder melhor à evolução da sociedade, ainda falta uma tremenda mudança de valores.

Quando as pessoas começam a votar em massa em partidos extremistas ou populistas, a classe no poder acredita que isso é um problema de falta de informação. Mas tira pouco tempo para pensar em quanta quota de responsabilidade terá nesta tragédia. E se existe uma grande percentagem de população radicalmente insatisfeita com o poder, o mais natural era concluir que, de facto, a governação falhou, radicalmente a essa população. Em consequência, o seu voto vai para quem se propuser a transformar, lá está, radicalmente a sociedade em vez de limar arestas.

Eu pertenço a um partido político. E nós, políticos, temos preferido enumerar o grande rol de vitórias e avanços que temos proporcionado à sociedade, do que estabelecer o debate mais pragmático sobre o quão errado está o nosso mundo, no geral. Este otimismo irritante é a única forma que temos de conseguir dormir à noite com algum orgulho, numa vida tantas vezes dura e ingrata, de serviço público, cujos méritos são tão poucas vezes reconhecidos.

O político precisa de se sentir útil quando se somam vozes ignorantes a dizer que “ele não serve para nada”. Precisa de se sentir valorizado quando sacrifica tempo de descanso e diversão, consigo e com a sua família, para mudar leis, criar apoios, programas, inovações, direitos e, ainda assim, só abre telejornais quando é apanhado num escândalo.

Mas o político cai num erro crasso e injusto. Tal como os porcos da Quinta dos Animais, ambos se multiplicam em argumentos para justificar a soma de regalias que para si conservam. Aos porcos é consagrado mais leite, mais trigo, mais ração, camas, cerveja, descanso. E aos políticos os gastos em gabinetes, os motoristas, as refeições, os salários. E ambos o fazem justificando o duro trabalho intelectual por que passam e até, a necessidade de se isentarem de preocupações mundanas como as deslocações e as contas mensais da família, de modo a que melhor se possam preocupar com os destinos dos seus concidadãos.

Mas em que será assim tão diferente o trabalho do político e de qualquer outro funcionário público, que também trabalha para a sociedade e também poderia beneficiar dessas regalias?

O trabalho de um político, tal como o de um professor, de um médico, de um jardineiro ou de um técnico não é fácil e pode ser muitas vezes frustrante. Mas o político garante, para si todas as condições para o fazer o melhor possível. E se todos os políticos fossem professores assim o seria com os professores, e o mesmo se todos fossem médicos, jardineiros ou técnicos. Mas o político, ao garantir para si essas condições, esquece como todos os restantes funcionários públicos, e todos os trabalhadores no geral, têm passado por privações atrozes durante os períodos de maior crise. E assim cria a injustiça e o sentimento de revolta contra si e toda a classe do poder.

Esta é, então, mais uma das lições de Orwell: De que só com a participação de todos, conseguiremos defender os direitos e os interesses de toda a gente. De que concentrar o poder nos porcos, ou em qualquer outra classe dominante, apenas servirá para aumentar as suas regalias. De que só com uma democracia verdadeiramente representativa e participativa, como a Quinta dos Animais tentou criar no seu princípio, conseguiremos uma sociedade mais justa, transformada e na qual todos se revejam.

Este artigo podia acabar com a minha carreira política, mas prefiro dizer verdades inconvenientes do que mentiras reconfortantes.

Miguel Partidário

Lic. em Ciências da Comunicação. Ator, Encenador, Escritor e Professor de Multimédia numa escola profissional. Presidente da JS Oeiras, da ala mais à esquerda do PS, para além de progressista, federalista e eco-socialista.

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