Pobreza: fado necessário?

Fado. O que necessariamente tem de acontecer; fatalidade. Escrever sobre o salário mínimo nacional era a minha intenção, mas rapidamente me apercebi que me aproximaria do tema da pobreza.

Sistemas económicos e políticos devem ser responsáveis pela distribuição de riqueza. Caberá aos mesmos garantir que as desigualdades são desacentuadas. Achar que existe uma mão invisível que garante o funcionamento da sociedade é mais utópico que achar que de facto oEstado deve, pode, urge agir nesta matéria.

A pobreza não é uma fatalidade, não tem de ser uma fatalidade. Ora vejamos, sabe-se que o sitio onde nascemos pode condenar as pessoas à partida, uma vez que as condições económicasdeterminam a riqueza ou não das gerações vindouras, podendo ser necessário 5 gerações até os descendentes atingirem um salário médio, segundo a OCDE. Os números são alarmantes: segundo o INE, 17,2% das pessoas estavam em risco de pobreza, e quase 10% das pessoas vivem emalojamentos com falta de espaço em 2019.

Os dados acima, mais que evidência científica, são a realidade do nosso país, à qual a política não deve descurar na análise dos problemas da sociedade e na consequente aplicação de medidas concretas. Arriscaria a dizer, se me permitem, que somos 99% social e 1% biológico. Onde se nasce é condição preponderante para determinar o curso de vida, e isso não se escolhe. As pessoas pensam e agem de determinadas formas por influência do contextos onde se inserem e fruto das relações que estabelecem quotidianamente. Aquela débil ideia de que a pobreza é desígnio do individuo por si só, de quem não trabalha ou não quer trabalhar, de quem não se esforça, de quem viveu acima das suas possibilidades, deve ser combatida ferozmente. Nãovivemos isolados, não nos esqueçamos disso.

Famílias que têm de escolher onde vão aplicar o salário, como e em quem vão ter gastos, famílias que têm de escolher ou mesmo optar pela não ida dos seus filhos para as universidades, se os seus filhos podem frequentar actividades extra-curriculares é a realidade do nosso país; sim,porque com um salário mínimo, muitas escolhas todos os meses são feitas, muitas despesas ficamproteladas e outras mais não liquidadas. Jovens que não conseguem viver fora de casa dos seus pais, que trabalham de sitio em sitio onde vínculos precários abundam. Subir o salário mínimo nacional não só é urgente para uma larga parte da população que vive com (muito) pouco pormês, como é o maior meio de combate à pobreza em Portugal.

O Estado deve funcionar como uma catapulta da ascensão social, não aplicando medidas universais, mas específicas para as franjas mais desprotegidas.

A pobreza não tem que ser um fado necessário numa sociedade.

Cristina Teles

Licenciada em Sociologia pelo ISCSP. Mestre também em Sociologia pelo ISCTE

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s