Marcelismo

Constato que a cada dia que passa existem mais socialistas ou, se quisermos, eleitores da esquerda moderada, com uma vontade inequívoca de depositar o seu quadradinho no nosso atual chefe de Estado, justificando-se – porque sentem que o devem fazer – com a proximidade e a dimensão humana que teve para com os cidadãos e territórios.

Ora, se é indiscutível que a eleição presidencial – do alto da sua particularidade – faz com grande parte destes vultos, nos quais me incluo, opte por tomar uma decisão que somente a eles os vincula, escolhendo um cidadão e não propriamente os apoios partidários que o precedem, a verdade é que jamais poderemos descurar a função presidencial de uma agenda ideológica e de um argumentário próprio, de visões de sociedade que se confrontam e de passados que devem, necessariamente, ser transportados para o presente.

Deste modo, cumpre-me recordar-vos alguns dos tópicos que devem merecer a nossa atenção na hora de fazer a respetiva escolha:

Falácia 1: Marcelo amigo

A falácia de Marcelo amigo é aquela que melhor colhe junto do centro-esquerda, porque, referem, foi cooperante com a governação socialista quando podia muito bem ter tido uma posição distinta.

Vejamos os factos:

Após 6 meses de uma geringonça constituída, e já depois da saída de Paulo Portas do PP, o melhor resultado em sondagem (Aximage; 2.4.2016) que o PSD consegue alcançar é na ordem dos 33.5% – Depois, afunda com a consagração de uma solução governativa de estabilidade, prosperidade e progresso, tendo o PS desde então oscilado entre os 35% e 40%, com alguns picos de 43%. Hoje, o PSD no qual Marcelo é militante não sai da aritmética dos 27%, resultado aliás que teima em manter desde a eleição de Rui Rio. A direita moderada unida, por sua vez, vale ainda menos, fruto da progressiva perda de eleitorado para os fanáticos daquela coisa nova que por aí anda. Assim, PSD, CDS e IL não servem (e que longe estão!) para a governabilidade.

A conclusão, mais do que algorítmica, é de lógica: Não houve condições políticas garantidas de um retorno da direita ao poder, desde 2016.

Falácia 2: Marcelo Cata Vento

O tipo é “da esquerda da direita” ou o “ele quer é agradar a toda gente”, são expressões comumente e enfadonhamente ouvidas por aí, como que a justificar o voto da esquerda no professor que, há quase 5 anos atrás, não precisava de ter outdoors de campanha porque desenrascava biscates em cabeleireiros de senhora.

Isto não podia ser mais falso. Marcelo não é cata vento nenhum. Tem a sua agenda, tem as suas convicções, tem o seu lado da história, porém, de forma ardilosa, tenta que a matriz ideológica (conteúdo) seja sempre subvertida pelos banhos em Cascais (forma). Afinal, o que é que interessam as convicções políticas de um Presidente da República que tira a camisolinha todos os dias para a TV? “É um cidadão como nós!!”, grita o povinho.

Marcelo é um conservador, um homem da direita tradicional, embora tente transmitir-nos todos os dias, em horário nobre, que não é aquilo que, de facto, sempre foi – Um homem que esteve sempre contra os grandes avanços emancipatórios das mulheres e das várias minorias em Portugal.

Falácia 3: Marcelo dos pobres e oprimidos

Dizem-nos os jornais que Marcelo quer acabar com a pobreza. E que sem-abrigos nas ruas, depois de 2023, é coisa que não pode acontecer. A leitura rápida de premissas atentatórias contra a desigualdade social, como estas, pelas quais os socialistas muito lutam, a custo, deve sempre merecer a nossa melhor consideração.

Porém, recuemos.

Qual o contributo de Marcelo na aprovação da Lei de Bases do Serviço Nacional de Saúde? 0. A agenda sempre foi muito clara e taxativa: Contratualização com privados enquanto caminho a seguir.

Qual o assentimento de Marcelo para com a alta finança e as suas trapalhadas? Total. Não nos esqueçamos dos retratos honestos com que, de quando em vez, algum post nas redes sociais nos brinda, aparecendo o Chefe de Estado ao lado desse ícone da idoneidade que é Ricardo Salgado.

Eu, progressista me confesso. E tão caras me são as lutas pelas quais Marcelo sempre logrou em estar contra.

Talvez ainda não tenha decidido por onde possa ir em janeiro, mas a certeza é clara: Não vou por aqui.

Tiago Soares monteiro

Beirão regionalista, progressista e humanista. Presidente da Federação Distrital de Castelo Branco da Juventude Socialista

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