Ardern – Nos Antípodas da Europa: Carisma para totós

Dia de 17 de outubro, acordei com o pressentimento que me tinha esquecido das chaves de casa no escritório que, rapidamente, confirmei que estavam na cesta da porta de entrada, improvisada como chaveiro. Vagueei pelas divisões meio atarantado, estava a esquecer-me de algo… de repente, enquanto virava as notícias do dia, lá dei por ela.

Jacinda Ardern reeleita Primeira Ministra da Nova Zelândia com um resultado histórico e maioria absoluta.

Estive semanas a seguir a campanha, os lives, os debates e a qualidade com que o Labour NZ sustentou uma super carismática líder até à arrebatadora vitória final. Parecia que tudo batia certo na campanha do Partido Trabalhista Neozelandês, uma orquestra num ritmo certo, pautado pela batuta da miúda de Morrinsville que se tornou uma rock star da Política Mundial.

A rapariga da pequena cidade de Morrinsville, foi como a 12 de outubro a CNN se referiu a Jacinda, uma jovem de uma cidade conservadora a sul de Auckland claramente centrada na agricultura. Na sua terra natal, no seu próprio “distrito” eleitoral, o Labour perdeu as eleições. É nessa zona noroeste da Nova Zelândia que se concentram os melhores resultados dos conservadores e onde os Trabalhistas são vistos como esbanjadores de dinheiros públicos e que, ainda por cima, criam imensos entraves à vertente mais “poluidora” da agricultura e pecuária de massas.

Será esse o principal debate das eleições Neozelandesas, entre a transição verde e digital, a supressão das desigualdades sociais no acesso à saúde, educação e até no combate direto à pobreza. Jacinda é o rosto progressista dessa transformação, claramente de fácil compreensão pelas gerações mais novas, que, com uma candidata que fala a mesma língua, ganharam um confortável “poiso” eleitoral.

A linguagem jovem e o marketing saboroso de Ardern, vem da sua formação e percurso. A formação na Universidade Waikato, onde se licenciou em Estudos de Comunicação – Relações Públicas e Ciência Política – deram as primeiras ferramentas à jovem mórmon, mas a sua transição para trabalhar no gabinete da emblemática Primeira Ministra Helen Clark, abriu-lhe as portas do mundo. É neste período, mais especificamente no ano de 2008, que a jovem cresce e acaba como Presidente da IUSY – International Union of Socialist Youth – e ao mesmo tempo é eleita como deputada pelo Labour. Como hoje, Jacinda não foi eleita pelo eleitorado de Waikato, sendo repescada pela sua posição nas listas nacionais do Labour que a colocaram num lugar “simpático”.

A jovem passa a falar e a conhecer a linguagem do mundo, superando a rapariguinha da aldeia conservadora, ganhando confiança e propósito político. A verdade é que o que mais se destaca em Ardern é a clara convicção ideológica e paixão pela política. É aqui que Ardern parece conquistar os Neozelandeses e o Mundo, ela é dona de uma convicção tremenda no que diz, transformando cada palavra numa simples ideia compreendida por todos. Essa capacidade de oratória não se esbate no sotaque carregado de Ardern, é também uma imagem construída pelo seu percurso.

Quando liderava o Labour em 2017, o resultado foi aquele a que Jacinda se habituou nas eleições locais, perdeu. Contudo e apesar da derrota, a líder ganhou no tabuleiro negocial a capacidade para fazer uma coligação com os Verdes e o Partido de extrema direita nacionalista – New Zealand First. A polémica coligação tornou-se numa espécie de oportunidade de ouro para uma jovem que lidera por proximidade e exemplo sem qualquer tipo de pudor. A forma como a nova PM se colocou no cargo seria então uma das maiores disrupções da comunicação e política mundial.

Jacinda fez o que está nos livros de Comunicação e Marketing Político: Acreditar no que faz e como faz, sendo coerente com o seu eleitorado e programa; agir de forma verdadeira e preparada; arriscar o suficiente para sair vitoriosa. Assim foi. Capaz de ser multidisciplinar, concentrou-se em responder às questões das desigualdades, educação e saúde e focando muita da sua política na supressão da pobreza e apoio à maternidade e infância. Fazia esse esforço nas políticas e no exemplo. Jacinda esteve grávida e teve Neve durante o seu primeiro mandato, dando uma clara prova de que a maternidade não é um empecilho feminino para nada. É dela o momento icónico de statement, ao aparecer na Assembleia da ONU com a sua filha e marido.

A Primeira Ministra sofreu, durante o mandato, um rollercoaster de eventos complexos para a gestão política corrente: Uma crise de terrorismo que abalou o país em Christchurch, uma crise de catástrofes naturais (fogos e inundações) e por fim um ano eleitoral em pandemia. É neste último ano que Jacinda ganha uma força sobre-humana e um destaque ainda mais contundente, pela destreza e confiança com que geriu a pandemia da COVID-19. O País das duas grandes ilhas é hoje um dos exemplos de gestão da pandemia e uma incrível foto de como nós gostaríamos de estar: sem medos e sem máscaras. Óbvio que as especificidades da ilha ajudam a controlar os riscos pandémicos, mas a assertividade do seu discurso, a capacidade de resposta atempada e firme nas restrições fronteiriças e a implementação de políticas públicas de contenção dos surtos permitiu a Ardern escalar de Pop Star para uma das mais credíveis líderes mundiais. 

Quando numa das suas formais e sérias apresentações dos briefs da COVID, Jacinda sente o abalo de um tremor de terra e reage com algum humor e coragem parecia ser capaz de vestir a capa de Batman e servir limonada numa venda de rua. Jacinda foi isto mesmo: Uma super-heroína igual a todos nós.

Foi nesse registo que se apresentou nos debates, com o sorriso rasgado a assumir o que lhe queriam apontar como falha. Foi assim que se apresentou nos lives no confinamento, ou nas viagens de trabalho e campanha. Usou e abusou da comunicação digital e percebeu qual era o seu canal de eleição para falar para o seu eleitorado, tendo superado a utilização do Twitter. Jacinda queria (e conseguiu) falar para as pessoas, segurada pelos jovens e mães e impulsionada por um discurso impressionantemente fluido e simples.

É dia 17 de outubro e eu já ando há alguns meses a seguir a mais entusiasmante política de esquerda do planeta. Talvez os erros que virão nos tragam menos endeusamento da miúda de Morrinsville, mas na noite eleitoral os resultados não enganam. O Labour e Ardern, não perderam. A miúda da aldeia conservadora torna-se primeira PM da Nova Zelândia com maioria absoluta (um acontecimento complexo devido ao sistema eleitoral Neozelandês). Entre lives de Facebook e sorrisos, abraços e partilhas sinceras, Jacinda trouxe o que falta à política europeia: coerência nas políticas, governação por exemplo e liderança carismática. Elegeu mais 18 deputados e fez desaparecer os eleitos do Partido Nacionalista, New Zealand First, dando uma verdadeira lição a todos nós de que se pode ser um líder popular sem se ser populista. À nova PM da Nova Zelândia “waimarie” e “kia hora”. Por aqui, a Europa que fique de olhos postos nos antípodas para encontrar o fim da nossa crise de lideranças progressistas.

david ferreira da silva

Com formação e background académico e profissional de Relações Internacionais e Comunicação e Marketing Político, David Ferreira da Silva é um escritor multifacetado que se assume como profissional da política, democrata europeísta convicto e poeta de tempos livres. Viciado em assuntos europeus e cidadania ativa é um dos co-criadores da Praça do Luxemburgo e entusiasta de speechwriting e public speaking.

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