Eleições Americanas: Guerra Identitária

A Identidade: todos os traços que nos definem enquanto civilização, enquanto coletivos e enquanto individuais. A política de Identidade confunde-se com a história dos Estados Unidos da América, levou à sua independência, à sua revolução e desde então tem vindo a determinar todas as grandes decisões deste país. A política nos EUA será sempre sobre identidade, mas nem sempre como seria de esperar. O erro comum que cometemos ao analisar os acontecimentos políticos nos EUA é que contamos sempre com uma solidariedade identitária… que raramente existe, especialmente na corrida à Casa Branca.

Recuando no tempo, quando olhamos para as eleições de 2016, embora o voto branco feminino se incline historicamente para o lado Republicano, era previsível que as mulheres caucasianas apoiassem a candidata caucasiana, Hillary Clinton, mas a esmagadora maioria acabou por votar em Trump, mesmo com o escândalo de agarrar as senhoras pela p****.

Já nestas eleições, vimos os candidatos à Nomeação Presidencial Democrata a basearem as suas estratégias no apoio do que parecia ser um grupo de afinidade natural: Kamala Harris, a falhar redondamente na Carolina do Sul, junto de um eleitorado democrata de maioria negra; Pete Buttigieg, homossexual e candidato mais novo na corrida, a obter o voto sénior mas não o da comunidade LGBTQ; Bernie Sanders, candidato mais velho, a obter o voto dos jovens; Julián Castro, único candidato latino, a não conseguir o voto da comunidade latina; E Joe Biden a conquistar o voto afro-americano e feminino, em detrimento da candidata Elizabeth Warren.

Donald Trump? Trump tem sido a cara da “white backlash”, a reação branca perante os progressos feitos pela administração de Obama que vieram possibilitar mais direitos e oportunidades para as minorias étnicas e não só. O que assistimos em 2016 foi uma *ainda* maioria branca a unir-se à figura que prometia preservar a identidade americana, uma identidade caucasiana, claro. Negacionistas, amantes de armas, fanaticamente religiosos, incrivelmente discriminatórios e altamente incultos – são apenas algumas caraterísticas.

2020 tem sido um ano de guerra nos EUA. Podemos dizer, com segurança, que Biden tem ganho esta guerra, pois tem aproveitado ao máximo os fiascos desta administração, nomeadamente na contenção da pandemia Covid-19 nos EUA que resultou, até à data, em mais de 230 mil mortos e cerca de 15 milhões de desempregados. Assim como os protestos raciais que sucederam a morte de George Floyd, onde a posição de Biden, exigindo ação para reverter o racismo sistémico na sociedade americana, contrastou com a posição provocadora de Trump, ameaçando enviar o exército para controlar os protestos e dando legitimidade a grupos armados de extrema-direita para condicionar estes protestos. Grupos esses que têm assediado o partido Democrata ao longo destas últimas semanas de campanha.

Dificilmente esta guerra acabará com os resultados de dia 3 de novembro, pois se por um lado temos minorias étnicas fartas de serem espezinhadas, seja a comunidade latina a sofrer cada vez mais com deportações e aprisionamentos em condições sub-humanas, ou a comunidade afro-americana que está cansada de ver os seus concidadãos negros serem assassinados pelas autoridades, por outro temos autênticas milícias, legitimados por Trump – que já pôs em causa a transição pacifica do seu poder – desejosas pela oportunidade de usar todo o seu material de guerra.

Conseguirá Trump repetir a receita de 2016? Conseguirá Biden traduzir este apoio multicultural numa vitória convincente? Levará esta guerra identitária a uma nova guerra civil? Apenas o tempo o dirá, em breve teremos a nossa resposta.

Esperavam uma previsão? Falem com o Oráculo do Rato.


Rodrigo Nascimento

Rodrigo Nascimento, criado no Vale da Amoreira e militante na JS Moita. A paixão pelo associativismo, com os seus dois mandatos à frente da associação de estudantes da secundária do seu bairro, levaram-no a embarcar numa aventura para as terras de Sua Majestade, onde estuda atualmente Relações Internacionais, Política e Estudos de Segurança. Socialista e Republicano, gosta de pôr os pontos nos i’s, não gosta de liberais nem de ananás na pizza.

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