Uma introspeção do último debate presidencial norte-americano: afinal quem saiu vencedor?

No passado dia 22 de outubro decorreu em Nashville, Tennessee o último debate entre os candidatos à presidência dos Estados Unidos da América, opondo Donald J. Trump, representante do partido republicano e atual detentor do cargo, ambicionando assegurar o seu segundo mandato na Casa Branca, e Joe R. Biden, a voz do partido democrata, convicto em dar uma resposta mais eficaz face às variadas adversidades emergentes durante os quatro anos do governo Trump.

Uma vez sentindo-me incapaz de apagar da minha memória o estado caótico que evidenciou ser a natureza do primeiro debate entre os mesmos, a ideia de assistir mais noventa minutos de insultos juvenis que transcendem o espectro político não me assentara confortavelmente. Todavia, para meu agrado, o cariz mais civilizado e informativo dos candidatos (salvas certas exceções) tornou esta hora e meia mais apelativa e esclarecedora no que concerne as posições e medidas defendidas e de que modo se contrastavam.

De facto, a melhor organização e moderação do debate merecem ser congratuladas, evidenciando tornarem-se nos alicerces do enriquecimento instantâneo da qualidade de intervenção de cada representante partidário. Particularmente, a medida de silenciar o microfone do candidato que desrespeitasse tanto o tempo de discurso do oponente como o limite do seu foi o fator chave na facilitação do controlo das intervenções por parte da moderadora Kristen Welker, contrariamente ao verificado com Chris Wallace.

Os dois minutos iniciais concedidos a cada candidato foram dedicados à discussão do tema que tem abalado o globo no início desta nova década: os efeitos devastadores da COVID-19 e que soluções de prevenção podem ser implementadas. Enquanto que Biden apresentou uma argumentação sólida, justificada com propostas que visam a acessibilidade de todos os americanos à vacina “quer tenham ou não seguro de saúde”, Trump demonstrou uma posição defensiva. Privilegiou referenciar o progresso conseguido pela sua administração, preferindo omitir quaisquer futuras medidas que visassem ultrapassar a pandemia e priorizando a referência do progresso na descoberta da vacina por parte das grandes farmacêuticas que, a meu ver, não passou de uma manobra de diversão desesperada com o intuito de salvaguardar o pouco que resta da sua reputação na resolução de problemas de ordem humanitária.

Aliás, destaca-se a convicção do candidato republicano de que o vírus “está a desaparecer”, afirmação à qual o partidário liberal se opôs, apelando para uma maior intervenção federal no combate ao alastramento acelerado covídico, sendo que teme a chegada de um inverno rigoroso para muitas famílias. Com efeito, a média diária de sessenta mil novos casos de infetados (segundo indica o The Covid Tracking Project) leva a crer que a fase de ultrapassagem do vírus é uma realidade ainda muito distante. Somando a isso, tal estatística recebeu a forte preocupação do especialista em doenças infeciosas da Casa Branca Anthony Fauci, cuja reação foi alvo de duras críticas do próprio presidente.

Com o prolongamento do debate, estabelece-se um padrão no discurso de cada interveniente. Para meu deleito, Biden mostrou-se apto em adotar uma postura antitética à que manifestara em Cleveland, Ohio.  Contrariamente ao que se sucedera no primeiro confronto entre as partes, no qual o democrata se apresentou mal preparado, constantemente gaguejando, transmitindo pouco vigor na expressão dos seus argumentos e permitindo interrupções inoportunas e constantes de Donald Trump, Biden chegou a Nashville com uma nova atitude. Foi deveras surpreendente a posição de confiança, clareza no discurso e eficiência que anteriormente lhe faltara. É imperativo que haja uma projeção forte e convicta com vista a apelar as massas e, embora tenha melhorado incontestavelmente neste aspeto, permanece como o campo no qual Trump apresenta ser exímio.

Em contrapartida, o candidato da ala conservadora revelou um discurso atípico. Fortemente caracterizado como um orador que se centra no ataque agressivo aos seus opositores como pedra basilar, Donald Trump mostrou-se, de um modo geral, incapaz de travar o impasse lhe ditado pelo ex-vice-presidente, uma vez que Biden incluíra fortes críticas às ineficácias do seu mandato. Trump revelou uma tendência em correr atrás do prejuízo, preferenciando desmentir tais acusações, tentando incluir em vão contra-argumentações na forma de incriminações controversas. Todavia, tais alegações, como o apoio russo à campanha de Biden, expuseram o seu discurso como enganador e estapafúrdio.

Contudo, o próprio ex-Senador de Delaware também não poupou Trump de acusações falaciosas. Embora pretendendo esclarecer a urgência de uma tomada de ação contra o alastrante número de americanos infetados e para tal ter uma visão imparcial, quer sejam Estados democratas ou republicanos, Biden imediatamente contradiz-se, culpabilizando os “red States” pela maior contribuição para o número diário de casos. Seria inconcebível refutar que não há picos de casos em alguns destes Estados, por exemplo, segundo constata o The Washington Post, Kansas teve uma subida abrupta de casos médios diários, mas casos democratas como North Dakota, South Dakota e Winsconsin demonstram que não há um critério de corelação entre o número de infetados e a orientação política, segundo adianta o New York Times.

Um dos tópicos tratados que mais me cativou a atenção, muito devido a comentários geradores de controvérsia, diz respeito à questão da justiça racial. Com o sucedimento de episódios vergonhosos no que diz respeito ao desrespeito étnico ao longo do ano, com destaque para o ato bárbaro do agente policial Derek Chauvin a George Floyd, e o enaltecimento de tais comportamentos por parte de grupos radicais como os Proud Boys, a opinião de cada candidato acerca deste assunto abalador teria de ser ouvida. Sinceramente, dada a gravidade destes episódios, esperava alguma seriedade vinda de Donald Trump, contudo demonstrou, ou por tentativa de ser politicamente correto ou por puro egocentrismo, que qualquer tema automaticamente se centra na sua gloriosa figura. O republicano, que não cessa em provocar escândalos com a sua atitude de Rei-Sol, afirma de pés juntos que ninguém contribuiu tanto para a comunidade afro-americana como ele desde Abraham Lincoln. Para o desespero de muitos e para o motivo de riso de outros, a verdade deste argumento é inexistente. O exemplo de Lyndon B. Johnson revela a falsidade da autocomiseração do presidente, dado que no seu mandato nos anos sessenta do século passado introduziu a Voting Rights Act, a Civil Rights Act e a Fair Housing Act, assim o declara o Boston University News Service.

Fontes como o The Washington Post avaliam que mais de setenta milhões de americanos já exerceram o seu direito de voto, contabilizando para pouco mais de metade do número eleitoral de 2016, levando a crer que esta votação poderá mobilizar um número de eleitores histórico. Em adição, poder-se-á sublinhar a importância acrescida deste resultado eleitoral em relação ao de 2016, que pesa não só nas decisões dos cidadãos norte-americanos, mas também nas esperanças de quem o acompanha no resto do globo. De facto, embora a importância indiscutível dos Estados Unidos no panorama internacional seja de conhecimento geral, esta votação sobrepõe-se a quaisquer questões político-económicas: ganhou um teor supranacional.

Atualmente sentimos o rasto de calamidade deixado pela pandemia, sem dar sinais de abrandamento. É essencial que esta crise humanitária esteja rigidamente vinculada na consciência de cada norte-americano quando o seu momento de ir às urnas chegar. Deve ser imperativo a simples reflexão: votar no candidato que promete uma reformulação coesa da atuação contra a COVID-19, que poderá apaziguar as tensões étnico-raciais que dividem o país e que promove um plano ecológico, ou optar pelo candidato que arrastou a reputação americana na lama durante quatro anos, que tenta apaziguar o nervosismo e a impaciência social afirmando que a vacina chegará brevemente, embora condenando opiniões de especialistas, e que surge como o epicentro das decisões e ideologias fortemente misóginas, xenófobas e racistas, levando ao incentivo à violência e discriminação contra as minorias.

Na minha opinião, face às incongruências do discurso de Donald Trump e a sua incapacidade de fundamentar e aprofundar as suas posições, Joe Biden parece-me ter sido convincentemente o vencedor deste debate, o que terá auxiliado em assegurar a confiança de muitos eleitores. Analisando o possível resultado das eleições através dos state-by-state polls traduzidos nos votos do colégio eleitoral (dados atualizados pela Financial Times), conclui-se o favoritismo de Biden, com 279 votos, em relação a Trump, apenas com 125. Adicionalmente, mesmo incluindo os votos dos Estados toss-up ao republicano, Biden continuaria com a maioria e, simpatizando-me com quem anseia pela saída de Trump da Sala Oval, expresso um desejo imensurável de que tais estatísticas se concretizem a 3 de novembro.

João Romão

Secretário do concelhio da JS Caldas e estudante de Relações Internacionais no ISCSP. Obsessão por vexilologia, cartografia e em saber capitais

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