Shinkasen: O projeto Japonês dos anos 60 que serve ao Portugal de 2020

A 1 de Outubro 1964 a capital Japonesa está prestes a receber os jogos da XVIII Olimpíadas, contudo as televisões japonesas transmitem com pompa e circunstância a inauguração da primeira linha de alta velocidade mundial, a Tōkaidō Shinkansen. A partir daquele dia, o povo japonês pode viajar entre Osaka e Tokyo(515km) em 4 horas (em 1965 já fazia a distância em 3h10min). O comboio bala alcançava uns impressionantes 220km/h e permitia à nação japonesa ligar as suas maiores metrópoles como nunca ninguém tinha visto no mundo.

Procurando contextualizar a dimensão do projeto e demonstrar que os japoneses estavam à frente do tempo, vou tentar sumariar a história notável de um projeto que hoje deixa qualquer nação a perguntar-se o porquê de não ter investido na ferrovia de alta velocidade nos anos 60.

O projeto do comboio de alta velocidade japonês tem as suas raízes nos anos 30, na época os responsáveis pela infraestrutura ferroviária sonhavam com a criação de uma ligação submarina à Ásia Continental para permitir ao Japão a exportação e a ligação ao mundo terrestre, mitigando no processo o seu isolamento marítimo. Pelo caminho, houve a segunda Guerra Mundial e o Japão parecia estar numa posição económica irrecuperável, deixando cair, este e muitos outros projetos. Contudo, dá-se uma recuperação milagrosa e, em meados da década de 50, o Japão voltaria a ser a maior potência económica da Ásia. Porém, a época não é favorável ao desenvolvimento da ferrovia, o mundo ocidental estava a construir estradas como nunca e assumia que as movimentações de passageiros de longas distâncias deveriam ser feitas através do ar. Contudo os responsáveis da empresa ferroviária Japonesa conseguiram convencer o governo de que este projeto seria a “Japanese Way” de resolver os problemas de mobilidade no seu território. E assim foi, o Japão em contraciclo com o resto do Globo decide investir 1.8 mil milhões de dólares na sua ferrovia de alta velocidade.

Hoje, olhamos para  este ambicioso projeto e constatamos que é um tremendo sucesso. Alcança todas as principais cidades do território japonês criando uma rede que permite viajar de comboio no pais de uma forma rápida, confortável e não poluente. É um exemplo mundial de pontualidade com um atraso médio de 24 segundos (este é o comboio que merece reportagens televisivas quando se atrasa mais de 2 minutos). Em termos de segurança, em 56 anos de operação ainda não teve um ferido a bordo. A linha tem sofrido melhoramentos constantes e hoje completa-se o troço original (Tokyo-Osaka) em 2h22min.

Olhemos ao Portugal de 2020, demoramos hoje 2h45min a viajar 300km entre Lisboa e Porto, tempo semelhante àquele que os Japoneses faziam em 1965 para percorrer 515km. Este atraso monumental relativamente ao Japão deve-se a um abandono nacional da ferrovia, a nossa política de infraestruturas no período democrático tem essencialmente sido focada na rodovia. O que não deixou de ser importante para um país que onde se perdia um dia para atravessar de norte a sul. Contudo, hoje o investimento na ferrovia já não é matéria de opção é sim uma necessidade estrutural, num país que precisa de descarbonizar rapidamente, procurando abandonar o hábito antiquado da utilização extensiva do carro pessoal.

O ministro da Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, tem liderado o esforço que o nosso governo está a fazer na ferrovia. Recentemente desenterrou um plano com mais 20 anos que pretende ligar Lisboa ao Porto em 1h15min, algo extraordinário para a realidade que temos hoje. É importante referir que a alta velocidade abriria a porta para termos uma área metropolitana contínua entre Lisboa e Porto. A possibilidade de acordar em Lisboa, poder trabalhar no Porto e o movimento pendular apenas durar 2h30min abriria a possibilidade de uma extensão significativa do território português ser habitável para os trabalhadores das grandes cidades.

Este deve ser o futuro da mobilidade no nosso país, procurar que a alta velocidade sirva não só o litoral, como os territórios do interior, criando uma coesão territorial nunca vista nosso país. Olhemos para o Japão e tentemos perceber o que esta linha contribui para a modernização e crescimento daquele país. Apliquemos em Portugal com a certeza que trará um país mais coeso criador de mais oportunidades, qualidade de vida e prosperidade transversal a todos os territórios que a linha sirva.

David Monteiro

Licenciado em Ciência Política. Autarca na Freguesia em que cresci. Presidente da CPC da Concelhia da Figueira da Foz da Juventude Socialista. Antigo atleta de alto rendimento. Defensor da intervenção do Estado como garante da liberdade coletiva.

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