Se eu fosse spin doctor do PSD

O spin doctor, em Portugal normalmente chamado assessor político, é a pessoa responsável por elaborar a estratégia, e consequente narrativa, para um político/partido atingir determinado fim, seja este fim: a simples aprovação de um projeto de lei, ou a formação de um Governo. Derivado à situação política atual dos Açores, apelidei, no Twitter, os spin doctors do PSD de “muito fraquinhos”, mas para isto não ser apenas uma crítica frívola, resolvi escrever este texto a explicar o que eu faria, se estivesse no lugar deles, ou seja, a estratégia que apresentaria ao líder do PSD e ao líder do PSD/Açores, após os resultados eleitorais serem conhecidos.

O primeiro ponto importante a referir é que estas Eleições Regionais dos Açores, e sequente processo de formação do Governo Regional, não definem apenas o panorama político desta região, mas sim toda a relação nacional da direita moderada democrática com a extrema-direita. Por isso, não é uma decisão que deva ser tomada exclusivamente pelo PSD/A, o líder nacional do PSD tem de assumir a responsabilidade nesta matéria.

Passando agora para estratégia propriamente dita, o PS, apesar de ser o principal derrotado destas eleições, foi o partido mais votado, portanto deveria ser o primeiro partido convidado a formar Governo. O PS conseguiria o apoio (coligação ou acordo parlamentar) do BE e do PAN, porém não seria suficiente, pois contariam apenas com 28 deputados, quando são precisos 29 para alcançar maioria. A direita e extrema-direita juntas têm 29 deputados, pelo que ao votarem contra, chumbariam o projeto de governo liderado pelos socialistas.

Demonstrada a incapacidade dos socialista assegurarem um Governo estável, seria a vez de convidar o bloco anti-socialista, liderado pelo PSD (o 2º classificado nas eleições), a arquitetar uma solução governativa. O PSD conseguiria facilmente recolher o apoio de CDS, PPM, IL e PAN, alcançando, assim, o número de 28 deputados que é superior aos 27 deputados do PS+BE.

Chegando a esta fase, é necessário tomar uma decisão importante: manter a barreira sanitária entre a direita moderada e a extrema-direita, ou negociar um acordo com os nacional-liberais do Chega. Aqui, é importante referir que Portugal viveu quase 50 anos numa Ditadura de extrema-direita no século passado, e, para mim, existe uma coisa muito clara e muito simples: nenhum verdadeiro democrata português aceita negociar com um partido, que, no mínimo, é saudosista dos tempos do Estado Novo. Portanto, a decisão correta é cimentar a barreira sanitária entre a direita moderada democrática e a extrema-direita.

Após isto, seria o tempo de colocar a narrativa a carburar e fazer pressão nos 2 deputados do Chega, ambos ex-militantes do PSD, que teriam uma decisão a tomar: viabilizar um Governo Socialista, ou viabilizar um Governo Anti-Socialista. A insistência nesta narrativa seria muito provavelmente suficiente para os 2 deputados da extrema-direita cederem, e viabilizarem o Governo liderado pelo PSD.

Naturalmente, haveria o risco do Chega não viabilizar o Governo do PSD, mas era um risco muito pequeno, que deveria ter sido assumido. O PSD, como todos os partidos, tem de ter uma visão de médio/longo prazo, mesmo que isso implique abdicar de chegar ao poder no curto prazo.

É importante notar que o eleitorado da extrema-direita é quase totalmente oriundo da direita moderada, e quando os moderados se coligam ou normalizam o discurso dos extremistas (na tentativa de disputar o eleitorado ou de chegar ao poder), acontece que o eleitorado da extrema-direita aumenta, enquanto o da direita moderada diminui. Noutros países já se percebeu isto, veja-se o caso alemão, onde Merkel foi perentória ao rejeitar que o seu partido, CDU, fizesse acordos/coligações com o partido de extrema-direita, AfD. Ou o caso espanhol, onde o líder da direita moderada, Pablo Casado, após experimentar acordos com o VOX, chegou à conclusão que essa aliança era negativa não só para o seu partido, mas também para o seu país, tendo-se tornado já famoso o seu grande discurso onde condena a extrema-direita. Olhando para isto, é fácil perceber que fazer acordos e normalizar o Chega não vai ser benéfico para o PSD no médio/longo prazo.

Se eu fosse spin doctor do PSD, seria, resumidamente, esta a estratégia que apresentaria a Rui Rio e a José Manuel Boleiro, mas, como no mundo real não o sou, o PSD seguiu outro rumo estratégico. Na minha opinião, um rumo profundamente errado, pois o impacto negativo no médio prazo será maior do que o benefício de chegar ao poder no curto prazo.

Abel Costa

21 anos, estudante de economia, social-democrata

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