A IA como avatar na mudança apocalíptica do jogo democrático

A luta pela democracia direta era um daqueles ideais que alimentou revolucionários e ideólogos, mas que nunca assustou verdadeiramente o poder político. Stuart Mill, esse paladino do parlamentarismo representativo, filosofo do utilitarismo, admitia que o estágio perfeito do desenvolvimento democrático seria atingido quando cada cidadão se pudesse representar a si próprio. Apontava o ideal, reforçando a impossibilidade prática de o implementar para justificar o sistema representativo. Apesar de algumas tentativas, de alguns democratas inovadores, continuamos marcados por esta visão do seculo XIX, a viver a prática democrática dominada pelas elites do costume. Mudam os regimes, mas as elites persistem. O atual exercício da política – o ser-se político/a – continua a ser uma carreira, ainda que a prazo. Dificilmente se faz política e outras coisas em simultâneo, embora, em teoria, nas democracias mais abertas todos os cidadãos devessem ser políticos ativos.

Têm sido pensadas algumas formas de transformar a democracia direta em prática do dia-a-dia, com assembleias alternativas onde certos assuntos da esfera política são deliberados diretamente pelos cidadãos. Tudo isso tem sido interessante, mas efémero e meras miragens, por vezes deixando até um certo travo amargo, porque raramente se dá continuidade aos processos e as decisões tomadas por essa via tendem a não ser implementadas. Parece haver até uma certa intencionalidade em desenhar essas iniciativas de modo a que o resultado seja o insucesso ou a inconsequência, limitando os assuntos, o poder de decisão, a assessoria técnica e falta de dotação orçamental para que as ideias se materializem. Quando se entra neste jogo, sabemos que, à partida, o resultado está viciado.

Mas Stuart Mill continua a ter razão, mesmo sem saber como seria o século XXI. O exercício da democracia, dita participativa, esvazia-se porque tem de concorrer com outras formas mais interessantes de passar o tempo que o capitalismo nos oferece. Mesmo que fosse super fascinante participar em todos os processos deliberativos, mesmo que alimentados por abordagens lúdicas e até por jogos, não teríamos tempo para estar em todo o lado, a abordar todos os assuntos e tomar as melhores decisões segundo os nossos próprios interesses de forma informada, quer nos movamos por desejos individuais ou pela defesa do bem comum. Mesmo se tivesses toda esta vontade e recursos, teríamos de ter a motivação para aprender sobre tudo ao mesmo tempo, por isso optamos por uma certa racionalidade ignorante na esfera política.

Ao vivermos em liberdade, com acesso aos bens materiais necessários, vamos querer escolher o prazer, e nem sempre o prazer coincide com o exercício político. Vivendo nós em sociedades pós-materialistas de acelerada intensificação rumo à destruturação do trabalho clássico, em que as máquinas nos vão substituir em troca de tempo livre, num capitalismo que transformará o lazer no primeiro dos consumos, tudo o que for pouco cativante será automaticamente remetido para a caixa de SPAM. Tal como afirmei anteriormente, vamos passar o nosso futuro a jogar, nas suas várias formas, porque isso vai alimentar o modelo económico vigente, enquanto nos manipula a felicidade, para o bem e para o mal. Mas será que iremos implementar novas formas de democracia neste novo mundo jogável? A democracia direta, essa velha ideia?

Com as máquinas e a inteligência artificial (IA) a dominar todos os aspetos da nossa vida, ambas poderão finalmente transformar a democracia direta numa realidade, mas com alguns truques, como num jogo onde as regras e mecânicas nos condicionam, mas permitem atingir resultados que não seriam exequíveis de outra forma. Poderíamos ter vários clones a participar em todas as esferas da vida democrática, que nos reportavam o que faziam quando houvesse necessidade? Se fossem clones perfeitos seriam como nós? E será que não se deixariam influenciar por populismos sectários ou ideologias improváveis segundo os requisitos do nosso perfil? Os nossos clones poderiam tornar-se fascistas, comunistas e trotskistas, enquanto outros buscavam o niilismo ou o ambientalismo pós-moderno mediante as esferas politicas onde atuavam? Então quantas clones, que no fundo seriam indivíduos despersonalizados e veiculados a um sistema de escravidão política, tínhamos de ter no mundo só para manter uma democracia direta repleta de alter egos? Não estaríamos apenas a amplificar os campos de batalha política com sangue de novos escravos? Seria diferente do que temos hoje? Seria, seguramente, insustentável se quiséssemos ser utilitaristas como Stuart Mill. Seria categoricamente pouco ético, pois estávamos a remeter outros para batalhas que nós próprios não desejamos. Seria a imposição de um novo sistema de classes entre humanos e clones.

Então e se utilizássemos a democracia aumentada, tal como defende César Hidalgo, recorrendo a avatares que seriam como nós, encarnações do nosso ser num mundo virtual desmaterializado. Esses superegos políticos poderiam estar em todo o lado, discutir e decidir sobre tudo, pois seriam encarnações virtuais de cada um de nós, existindo numa forma intelectual melhorada pela inteligência artificial. Ou seja, o nosso avatar seria o alter-ego político de nós mesmos com superpoderes de decisão, omnipresente nas arenas de decisão política e omniconsciente de tudo o que fosse o nosso interesse político. Podia meter-se em batalhas políticas e aprender por nós, podia consultar-nos e nós poderíamos reverter algumas das suas decisões se quiséssemos. Mas e se estes avatares se tornassem nos soldados da tecnocracia liberta de emoções, calculando e avaliando cada pedaço de vida em unidades monetárias? Poderão estas máquinas tomar decisões racionais sem emoções? E se as tiverem, como nos veriam, como os tiranos esclavagistas? Aconteceria o mesmo que com os clones despersonalizados que abandonamos para nos divertirmos longe da política? Será o futuro da democracia a mais brilhante utopia e ao mesmo tempo a derradeira catástrofe distópica da revolta e domínio da máquina sobre a humanidade? Estaríamos finalmente a criar o cidadão perfeito, frio e calculista, capaz de viver de forma ótima, demonstrando o quão dispensáveis politicamente somos, nós e as nossas emoções humanas?

Seja como for, se estivermos a jogar ou a fazer outra coisa qualquer para dar sentido à nossa vida na era do pós-trabalho, quais cigarras da contemporaneidade lúdica inconsciente, o apoio e ensaio de novas formas de democracia não deve cessar. A democracia não é um produto acabado. Para se manter viva tem de estar em contante evolução e desenvolvimento. A democracia tem de ser um produto de inteligência evolutiva e adaptativa. No fundo, quem decide pior: os cidadãos que são manipulados por inteligência artificial ou a inteligência artificial que pode apoiar cidadãos a decidir? Pode eventualmente emergir a derradeira epifania artificial, em que as máquinas cheguem à última decisão de que o mundo não precisa de humanos como nós. Quem sabe se só as máquinas poderão fazer a revolução que o mundo sempre necessitou: mudar a humanidade. Serão elas os revolucionários de esquerda que se desapegaram da riqueza e do conforto para lançar o derradeiro ultimato à humanidade para mudar as regras do jogo social? Será a anarquia igualitária e da consciência de rede das máquinas o pináculo da democracia?

As sociedades humanas são sistemas de regras interativos, estruturas de múltiplas influências entre as esferas coincidentes e conflituantes do individual e coletivo. A sociedades são grandes jogos, intermináveis, mas historicamente situados, nos quais nos viciamos através das suas dinâmicas e efémeras recompensas, mesmo sabendo que no fim, por mais níveis que consigamos ultrapassar, iremos sempre morrer sem sentido em total desigualdade. As sociedades produzem, mesmo assim, a história e quadros de líderes desses jogos, ditada por quem mais pontuou segundo o sistema de regras em vigor. Está na altura de repensar as regras deste jogo, com todas as vidas e cabeças que pudermos usar, incluindo as não humanas.

micael sousa

Doutorando em Planeamento do Território na Universidade de Coimbra. Co-fundador da Associação Astericos.

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