Foi um sonho lindo que acabou – 25 de Novembro

“Hoje venho aqui falar de uma coisa que me anda a atormentar. Como é que gente tão socialista desistiu de fazer o socialismo?” – Sérgio Godinho

Findo o pesadelo da ditadura, começa um novo período da vida política em Portugal, iniciado pela revolução dos cravos em 25 de Abril de 1974, quando um movimento de capitães do exército português marchou sobre Lisboa e derrubou o governo de Marcelo Caetano. Nas palavras de Salgueiro Maia, um dos capitães revoltosos, dirigindo-se aos soldados da Escola de Cavalaria de Santarém na noite de 24 de Abril: “Há os estados socialistas, os estados ditos comunistas, os estados capitalistas e há o estado a que chegámos.” Com a revolução vieram as liberdades políticas e sociais, o desmantelamento do aparelho de repressão fascista, o fim da guerra colonial fratricida e a oportunidade de construir uma nova sociedade socialista – um sonho lindo.

Após a revolução, iniciou-se o plano dos 3 Ds: Desenvolver, Democratizar e Descolonizar, que serviria de base aos múltiplos governos provisórios em 74 e 75. Durante este período de grande efervescência social, marcado por coletivizações de fábricas e latifúndios pelos trabalhadores, greves e manifestações diariamente pelo país, violência e terrorismo por parte das remanescentes forças fascistas, o “saneamento dos PIDEs” e a nacionalização de uma boa parte da economia, a unidade surgida depois da revolução entre as diversas forças politicas foi-se quebrando consoante o projeto que cada uma tinha para Portugal.

No auge do período revolucionário português, após meses de instabilidade e o golpe falhado da direita e extrema-direita em 11 de Março de 1975, formam-se 3 setores militares opostos: Por um lado, os militares centristas ligados ao “grupo dos nove”, um grupo de oficiais liderados por Melo Antunes e simpatizantes do PS e PPD (atual PSD); por outro lado os apoiantes do PCP e do ex-primeiro-ministro Vasco Gonçalves; e por fim os militares à esquerda do PCP e ligados a Otelo Saraiva de Carvalho.

Chegamos assim ao dia 21 de Novembro de 75, quando oficiais do grupo dos nove expulsam Otelo de Carvalho do Comando da Região Militar de Lisboa. Corriam rumores que estes pretendiam dissolver também o COPCON (Comando Operacional do Continente, criado pelo MFA após o 25 de Abril). Após a expulsão de Otelo, a auto-suspensão (ou “greve”) do VI Governo Provisório no dia 20 de Novembro e o levantamento conservador de latifundiários em Rio Maior que cortou a A1 no dia 24 de Novembro, os paraquedistas de esquerda da base de Tancos a iniciam uma desorganizada revolta militar no dia 25, exigindo a demissão do Comandante do Estado Maior da Força Aérea Morais da Silva e a restituição de Otelo ao comando da RM de Lisboa.

Até ao dia seguinte a revolta estaria controlada pelas forças leais ao presidente da república, o general Costa Gomes, ao Tenente-Coronel Jaime Neves e ao já referido Melo Antunes, após a confirmação de que o PCP não mobilizaria os seus militantes para ações de apoio aos militares revoltosos. Centenas de militares de esquerda seriam presos e Otelo de Carvalho seria demitido de todos os cargos, com o COPCON a ser extinto no próprio dia.

Foi aqui que “a nossa festa se estragou e o mês de novembro se vingou” (José Mário Branco). Com esta “terrível” tentativa de instaurar uma “ditadura comunista soviética estalinista”, que não passou na realidade de uma revolta desorganizada de militares de esquerda para impedir a acumulação de poder no setor moderado das Forças Armadas politicamente alinhado ao centro e à direita, acabou por, na prática, levar à consolidação do poder nesse mesmo setor moderado. Deu-se assim início ao processo constitucional que estabeleceria o capitalismo liberal e a democracia representativa em que hoje vivemos, garantindo a governação bipartidária alternada para os próximos 45 anos e derrotando as aspirações a uma sociedade socialista e a uma democracia popular e direta.

Além disso, assistimos hoje a um revisionismo histórico do que foi o 25 de Novembro por parte da direita e da extrema direita. “O 25 de Abril deu-nos a liberdade, o 25 de Novembro deu-nos a democracia”, dizem alguns de forma mentirosa, como se não tivesse sido o 25 de Abril a conquistar a democracia, tendo inclusive as primeiras eleições para a Assembleia Constituinte sido realizadas a 25 de Abril de 75, antes do 25 de Novembro. Pelo contrário, a consolidação do poder no centro político garantiu o fim do projeto de Abril de uma democracia de base, popular e direta.

Durante todo o PREC organizaram-se novos sindicatos; cooperativas em todas as áreas da economia, da agricultura às artes; comissões de trabalhadores, de moradores, de soldados, etc – que seriam os alicerces do novo poder numa sociedade socialista, sem classes, verdadeiramente democrática e mais horizontal. Em vez disso, libertaram-se os PIDEs, proibiram-se as comissões de soldados, devolveram-se os latifúndios aos fascistas e a banca aos capitalistas enquanto se enviavam as policias para reprimir os trabalhadores e subjugou-se o desenvolvimento nacional aos interesses imperialistas europeus e americanos. Foi para isto que se fez o 25 de Novembro.

“E há quem fale já em liberdade
A de falar ou a de irmos e virmos
É bem diferente duma outra que queremos
Que é ter nas mãos aquilo que produzimos” (Fausto Bordalo Dias)

Foi um sonho lindo que acabou, houve aqui alguém que nos enganou.

Tiago Lucas e Tiago Santos

Tiago Lucas: estudante, 20 anos, de Castelo Branco
Tiago Santos: Vogal da Associação Académica de Lisboa. Secretário do Conselho Pedagógico do ISCAL. Activista Político
São colegas de turma, dizem

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