Esperem sentados

Estão à espera que sejam primárias a salvarem o Partido? Podem esperar sentados.

Regresso à Rosa Mecânica, desta vez, não para exteriorizar o assombramento que Hegel faz a qualquer pessoa interessada por Filosofia da História, mas sim para assumir um tom provocatório.

Desde os anos 90 e 2000 que o declínio da militância e do ativismo nos partidos políticos tem sido objeto de estudo dos especialistas da área em Ciência Política. Portugal, neste caso, não foi excepção ao panorama europeu generalizado (se bem que o surgimento de novos partidos pode alterar isto – resta saber, através de estudos aprofundados, se a maioria dos seus militantes provem de partidos mais antigos ou de outros sectores da sociedade). Para os mais curiosos, a obra Militantes e Ativismo nos Partidos Políticos, da organização de Marco Lisi e Paula de Espírito Santo, pode elaborar isto de uma forma que vai muito além da minha competência.

No caso do Partido Socialista, em particular, surgiu uma corrente de força minoritária que defende, entre outras coisas, a generalização de primárias na escolha de candidatos e dirigentes (como se pode observar, recentemente, no apelo a uma primária que dirigisse o eventual apoio do PS a um candidato presidencial). O PS tem algum histórico na questão de primárias – o atual Secretário-Geral foi eleito, em 2014, candidato a Primeiro Ministro através desse mesmo processo, mas há que lembrar a excepcionalidade deste caso: o desafio de Costa a Seguro foi despoletado por resultados fracos nas eleições europeias e não no sentido de generalizar o procedimento.

Com todo o crédito devido aos camaradas – a discussão e choque de ideias é fundamental para qualquer partido – permitam-me que repita: se estão à espera que sejam primárias a salvar o Partido, esperem sentados.

É desesperante para qualquer dirigente partidário ou para qualquer militante dar de caras com a enorme dificuldade de mobilização e recrutamento num partido tradicional – ambas as minhas concelhias, do PS e da JS, nas Caldas da Rainha, não escapam a isto – mas não é através de primárias que se encontra a solução.

A solução está no rejuvenescimento interno e não é apenas nos partidos – é na política. A discussão de democracia representativa vs. democracia direta daria panos para mangas, mas quero ficar por um olhar breve pelo país onde a difusão de primárias partidárias é a norma – falo dos Estados Unidos da América – onde a política foi transformada num teatro de popularidade em que o candidato com um record pessoal (e sim, digo pessoal, porque o standing da pessoa e a falta de escândalos na sua vida eram apresentados como fator preferencial mais vezes do que a competência) imaculado era mais provável de sobreviver ao escrutínio público do que alguém com provas dadas de competência.

Para atrair as pessoas à democracia, é preciso que esta se rejuvenesça e é inaceitável que se verifique e se permita a permanência de figuras no mesmo cargo durante, muito literalmente, décadas, até que estas escolham sair. Se querem atrair pessoas para os partidos e para a política, permitam que estas possam vir a ter voz e a contribuir para ambos – com todo o crédito à moção sectorial apresentada pelo camarada Pedro Barata, da JS de Peniche, estabeleçam limites de mandatos a todos os cargos, incluindo a nível partidário e a nível institucional. O sistema precisa de se rejuvenescer e precisa de regras que forcem o desencadear desse processo.

manuel martins

Presidente da JS das Caldas da Rainha. Estudante de História na UNL/FSCH. Fanático da UE, fã de Gorbachev e António Arnaut

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