A pão e circo

Uma restauração que consente deixar-se representar por um Ljubomir é uma restauração que nunca o foi

Nos últimos dias, Ljubomir e seus amigos resolveram, num ato de histrionismo puro, montar um circo à porta da Assembleia. Como meninos mimados que são, exigem tudo e mais alguma coisa. Exigem redução de impostos, exigem subsídios, exigem horários e exigem ainda ser recebidos pelo Sr. Primeiro-Ministro e pelo Sr. Ministro da Economia.

Não tardou a resposta da internet, que colocou a nu quem eram os líderes deste movimento (auto-proclamado sem líderes) de libertação nacional: empresários abastados à procura de protagonismo. A opulência e despesismo dos líderes deste movimento é evidenciada pelas contas de Instagram “estilo influencer” que revelam iates atracados na marina e carros de luxo na garagem. Sabe-se desde agosto que Ljubomir iria ganhar na SIC 15 mil euros por mês mais extras, após a sua saída da TVI.

Esta nota serve apenas o propósito de esclarecer que este não é um movimento representativo de, entre outros, negócios familiares ou semelhantes (que sofrem realmente dificuldades), mas sim de empresários privilegiados à procura de protagonismo.

Os tomates cherry de Ljubomir

O nosso principal protagonista, Ljubomir Stanisic, é um chef de restaurantes de luxo que quando não se encontra num qualquer canal de televisão a insultar e humilhar negócios de restauração familiares, encontra-se num qualquer canal de televisão a lançar frases chocantes como “o Governo não tem tomates para fechar os restaurantes”. Só que o Governo resolveu, de facto, restringir o horário dos restaurantes na fase mais devastadora da pandemia e parece que o próprio não gostou.

Se esta expressão foi infeliz, não só pela deselegância, mas também pela hipocrisia que veio a revelar, é preciso dizer que não é caso único: o presidente do CDS-PP mergulhado no espírito do oportunismo dirigiu-se ao circo de Ljubomir para dialogar com os “empresários grevistas” e escutar as suas “preocupações”. Acabou expulso após um tratamento humilhante por parte de Ljubomir e seus amigos.

O discreto charme do subsídio

Já se sabe que o subsídio é sempre belo e elegante quando se o dá aos ricos e sempre feio e obsceno quando se o dá a pessoas que vivem em situação de miséria. Nesta senda, o nosso “querido” e seus amigos julgam-se na posição de exigir tudo e mais alguma coisa, porque são “empresários especiais”.

Ljubomir e os seus amigos exigem subsídios e rejeitam moratórias, mesmo quando se sabe que já foram disponibilizados 1.103 milhões de euros em apoios às empresas de restauração, dos quais 523 milhões de euros a fundo perdido, para não falar da compensação do Governo às perdas de faturação ocorridas nos fins de semana com limitações aos horários de funcionamento, no valor total de 25 milhões de euros.

Ljubomir e seus amigos queixam-se da falta de apoios às discotecas que desde março não puderam reabrir (nos moldes tradicionais), mesmo sabendo que as mesmas beneficiam de uma isenção total de TSU no quadro do regime de lay-off simplificado e que têm uma majoração de 50% no acesso aos apoios a fundo perdido do programa Apoiar, além de beneficiarem de uma moratória no pagamento de rendas até ao final do ano.

Ljubomir e os seus amigos exigem o regresso dos horários à normalidade num momento anormal da nossa vida coletiva e na fase mais devastadora da pandemia, causando uma histeria injustificada quando se sabe que Portugal foi dos países que menos restrições impôs à restauração.

“O Governo não quer brincar connosco!”

Como meninos mimados que são, acham-se no direito de o Primeiro-Ministro os receber.

Dizem que o Governo se recusa a os receber, mas é sabido que a 18 de novembro o Secretário de Estado do Comércio e a Secretária de Estado do Turismo já haviam recebido a Associação Nacional de Discotecas, representada por José Gouveia e Alberto Cabral, dois dos nove empresários que constituem o dito movimento.

Há ainda uma resposta interessante de José Gouveia a uma jornalista, em que este diz não ver primeiro passo em o Governo reunir com as confederações do turismo e dos serviços e comércio, pois com quem o Governo deveria reunir era com o dito movimento.

Se isto não evidencia que o propósito do dito movimento é o protagonismo e não a procura de soluções, não sei o que mais evidenciará.

Em suma, a brioche e espumante

Não se admirem se daqui a uns meses Ljubomir publicar um livro com um título chocante sobre a sua grande luta pela libertação da nação ou aparecer num qualquer programa de televisão para falar sobre a sua dura greve de fome e hospitalização.

Ele ou qualquer um dos seus amigos, pois este é somente um projeto de promoção e procura pelo mediatismo semelhante ao que há uns tempos Pedro Pardal Henriques fez com os motoristas de matérias perigosas.

Diogo Henrique Vintém

Estudante de Direito e defensor radical de uma verdadeira democracia política, económica, social e cultural

4 comments

  1. Excelente reflexão…no entanto…para salvar o sistema Capitalista…será necessário imprimir moeda e distribuir pela população….mais umas semanas e o Caos económico obrigará as pessoas a virem para a RUA…so quem tem rendimentos garantidos ficará em casa…a ver nas próximas semanas….

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