Abutres, epidemias, e uma mudança de mentalidade

Seria de esperar que a fronteira entre Portugal e Espanha fosse ignorada pelos animais, especialmente pelos alados. Mas não: esta linha imaginária é escrupulosamente respeitada por abutres-pretos, grifos, britangos e outros abutres. Apesar dos habitats de um lado e de outro serem semelhantes, estas aves necrófagas raramente visitam Portugal.

O desinteresse destas aves pelo lado de cá da fronteira tem uma causa simples: o Art.º 8 do Decreto-Lei 142/2006, de 27 de Julho,[1] onde se diz que “É proibido o abandono de cadáveres de animais mortos na exploração,” e que “os detentores de animais das espécie bovina, ovina e caprina” têm doze horas para comunicar a morte do animal ao Sistema Nacional de Informação de Registo Animal, “para que seja promovida de imediato a recolha do cadáver.”

Sem cadáveres de animas de médio e grande porte, estas aves necrófagas ficam sem alimento em Portugal, e as populações encontram-se agora em níveis muito baixos. O contrário acontece em Espanha, que se pode orgulhar de acolher cerca de 95% da população mundial de abutres-pretos. A lei portuguesa transforma assim a fronteira política numa barreira ecológica, com prejuízo para Portugal.[2]

Porque os abutres fazem muita falta. Os seus poderosos metabolismos e o corrosivo ácido dos seus sistemas digestivos permitem aos abutres consumir cadáveres em elevado estado de decomposição. Muitas bactérias têm a sua última paragem no estômago de um abutre, o que faz deles um obstáculo importante à propagação de doenças zoonóticas (transmitidas por animais). A “crise dos abutres da Índia” da década de 90, por exemplo, causou um aumento preocupante da doença da raiva, que permanece um dos seus grandes desafios de saúde pública do país.

É também um vírus zoonótico que está na origem da pandemia que vivemos. É cada vez mais claro que o surgimento da versão humana SARS-CoV-2 se deu devido ao tratamento despiciendo de animais para consumo humano. E tal como este Sars-Cov-2, há centenas de milhar de vírus residentes em animais com a potencialidade de transitar para os humanos. A probabilidade de o fazerem é tão maior quanto mais destruirmos habitats e forçarmos espécies a partilhar espaços que não são os delas. Como alerta Peter Piot, “estamos a viver numa era de pandemias”.[3]

A solução verdadeira é a alteração profunda da nossa relação com a natureza. E temos por onde começar. A trapalhada ecológica criada pela legislação supostamente sanitária da remoção obrigatória de cadáveres é um excelente símbolo do atraso de Portugal na resposta a um desafio que se tornou central: a conservação e a recuperação da biodiversidade e de paisagens naturais que tornem o nosso planeta saudável e sustentável novamente. O rewilding (renaturalização) da paisagem tem enormes potencialidades no combate ao aquecimento global através de recuperação de ecossistemas que capturam carbono. E para recuperar esses ecossistemas precisamos das espécies que os constroem e mantêm, como os abutres.

A raiz do problema está na negligência que mostramos pelo mundo natural. Em Portugal, a mudança de paradigma terá de passar por políticas de conservação e renaturalização e pela coesão territorial. Mas também pela educação. Para que essas políticas tenham apoio temos de cultivar uma relação diferente com a riqueza natural que nos rodeia. Em 2016, 70% das nossas crianças passavam apenas uma hora ao ar livre por dia[4] e com a pandemia podemos imaginar que este número ainda tenha descido mais. Só se os portugueses valorizarem a natureza é que apoiarão a nova geração de políticas públicas de que precisamos.  

É por isso tentadora a medida engendrada por Xavier de Maistre em Viagem à Volta do Meu Quarto: “Oh! se eu fosse soberano de um país (…), havia de fazer tocar os sinos todas as noites e obrigaria os meus vassalos de todas as idades, sexo e condição, a chegar às janelas e a olhar para as estrelas.”[5] Mas se quisermos algo mais prático, podemos começar por deixar ficar os cadáveres do gado aos abutres que deles precisam.


[1] https://dre.pt/legislacao-consolidada/-/lc/106639382/201704190513/73413842/element/diploma

[2] Arrondo, E. et al. “Invisible barriers: Differential sanitary regulations constrain vulture movements across country borders,” in Biological Conservation, Março de 2018.

[3] Financial Times, “The next pandemic: where is it coming from and how do we stop it?”, 29 de Outubro de 2020. https://www.ft.com/content/2a80e4a2-7fb9-4e2c-9769-bc0d98382a5c

[4] Diário de Notícias, “Crianças só têm 63 minutos por dia para brincar ao ar livre”, 7 de Outubro de 2016. https://www.dn.pt/sociedade/criancas-so-tem-63-minutos-por-dia-para-brincar-ao-ar-livre-5428409.html

[5] Xavier de Maistre, Viagem à Volta do Meu Quarto, seguido de Expedição Nocturna à Volta do Meu Quarto, trad. Carlos Sousa Almeida. Lisboa: Edições Tinta-da-China, 2015 (publicado originalmente em 1825). 

Tomé Ribeiro gomes

Estudante de História, Estudos de Segurança e Defesa. JS Lisboa.

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