Cummings, Cumberbatch e o Brexit – Entre a ficção e a realidade da política.

Vinte seis de maio, o mais importante conselheiro do Governo (pouco) conservador de Boris Johnson apresenta-se num enquadramento floral do terraço jardinado de Downing Street, camisa branca digna de um fim de semana em Brighton, mangas arregaçadas e uma jarra de água. É neste frame que Dominic Cummings se posiciona para uma declaração oficial calma, pseudo-compreensiva, mas, claramente, indiferente às análises da opinião pública sobre uma deslocação “fora-da-lei” que o special adviser de BoJo realizou, durante o apertado lockdown no UK1.

Cummings é isto! A disrupção na comunicação, o estilo e espírito livre que quebrou os códigos de indumentária de Downing Street e de toda a política britânica, dando uma declaração subjacente, de que “quero, posso e mando”.

Em 2019, o conhecido ator Bennedict Cumberbatch faz de Cummings numa reconstituição ficcionada da campanha sobre o referendo, de vinte e seis de julho, sobre a permanência do Reino Unido na União Europeia, intitulada de “Brexit – The Uncivil War”.

No filme, Cummings, aparece caracterizado com a sua calvície e frágil força capilar, com o ar tresloucado de quem escreve a marcador nas paredes da sede de campanha. Na ficção passa a imagem de génio do marketing político que pega nas novas teorias de cruzamento entre a comunicação política, a análise de dados e a visão da política científica e de análise neurológica. Não escapará muito da realidade, mas Cummings é na verdade o transformador do óbvio.

No referendo, do lado do Leave, Cummings foi a figura central na gestão de campanha, mas nunca foi a sua cara. No seu percurso entre a realidade e a ficção podemos vê-lo como o facilitador entre a linguagem e anseios das pessoas e as mensagens que os políticos precisam de passar nas eleições. É nessa toada que aos poucos vai construindo o mítico slogan “Take Back Control” com que brindou a folclórica campanha de 2016.

Adaptar a realidade às mensagens que se pretendem passar é o motor do SPAD de Bojo, tanto durante a campanha do Brexit como já no conselho de sombra que este dá no 10 de Downing Street. Parece na ficção e na realidade uma junção perfeita: As políticas “data driven”, e tecnocráticas de sobrevivência política de Cummings, cruzadas com o discurso fluido do disruptivo, apalhaçado e carismático Boris Johnson (que venceu não só o referendo como destruiu o Labour de Jeremy Corbyn nas eleições gerais de 2019), criando uma simbiose rara.

2020 é uma besta para muitos, mas parecia que seria mais um ano de demonstração da força inquebrável de Cummings e da sua inesgotável influência sobre os grandes dossiers do Governo Britânico de Johnson. Quando a vinte seis de maio Dominic aparece para falar no jardim de Downing Street era só mais um dia no seu total controlo do Governo. Mas não, Cummings estava a caminho do fim, a sentir o seu lugar posto em causa e a opinião pública a sondar a sua vida privada como se de uma estrela de cinema ou um Primeiro Ministro se tratasse.

Foi este o paradoxo do Adviser-Ministro, tanto era decisor de sombra, discreto e fora da caixa que se tornou o alvo dos media e opinião pública dos britânicos. Como Dominic não conseguiu, nunca, deixar de ser o que queria e como queria, tendo sido esse espírito que o levou ao sucesso, acabou a fazer o que queria contra tudo e contra todos.

Faz agora um mês (13 de novembro) que Cummings saiu do Governo, uns dirão que foi demitido, outros que se demitiu, mas esse mistério ficará para ser resolvido por outras séries da Netflix. A sua saída foi tão discreta como surpreendente, quase meio ano depois da mediática infração do lockdown. A verdade é que as saídas e entradas nos Governos, raramente, são coincidências, motivos pessoais e/ou de saúde (como alguns gostam de empunhar como argumentos). Talvez possa parecer muita conspiração, mas a saída de Cummings coincide com a última fase das negociações (bastante tensas) do Reino Unido com a União Europeia, para um Brexit com acordo entre as partes.

Na verdade, os impactos nacionais e regionais da saída de Cummings podem ser bastante mais relevantes. Michael Gove referiu-se, na palestra anual da Ditchley Foundation, ao que chamam de Smart Government e tecnocracia populista defendendo esta tese, que é a base programática de Cummings. Fica então por saber se esta deriva do Governo Britânico fica fragilizada e pode criar uma visão mais conservadora nas políticas de Bojo.  

Fica muito por saber… Mas entre a realidade e a ficção haverá uma história por contar. Apostaria que nos gabinetes de Downing Street os políticos como Johnson começaram a se cansar da política pragmática e técnica de Cummings e usarão o acordo do Brexit como demonstrativo de uma preocupação e sucesso político-diplomático, que Cummings claramente não queria. Contudo, entre a realidade e a ficção desta história, não haverá nunca dúvidas que o papel principal foi (e provavelmente será) de Dominic Cummings. Falta saber se haverá cenas dos próximos episódios e se ele quer ou não um bom “Take Back Control”.

  1. https://time.com/5842489/dominic-cummings-coronavirus/

2. https://www.politico.eu/list/politico-28-class-of-2020-ranking/

david ferreira da silva

Com formação e background académico e profissional de Relações Internacionais e Comunicação e Marketing Político, David Ferreira da Silva é um escritor multifacetado que se assume como profissional da política, democrata europeísta convicto e poeta de tempos livres. Viciado em assuntos europeus e cidadania ativa é um dos co-criadores da Praça do Luxemburgo e entusiasta de speechwriting e public speaking.

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