Ultimato às Calças bege e dopamina.

São três e meia da tarde, o céu começa a abrir, o sol frio de dezembro por uns instantes saúda todos os presentes na esplanada dos 100 Montaditos e os copos de cerveja vazios vão-se acumulando na mesa. Deste festim de jovialidade há três constantes que se tornam inconcebíveis de ignorar, os 30 pares de calças beges, as 354 histórias de Instagram postadas e a minha notória embriaguez.

Porquê 354 histórias de Instagram? A Maria do Mar afirma, que são apenas 354, pois os dados acabaram e o WiFi dos 100 Montaditos é “Um desastre”. Eu o individuo embriagado, e qualquer sociólogo vos dirá que tudo se resume à natureza patológica do ser humano em obter aprovação social e vá sejamos honestos, se não é para os outros verem que tens uma vida social ativa e apanhas umas bebedeiras para quê que servem as redes sociais, não é?

Torna-se indivisível a teorização da nossa conduta social da nossa presença nas redes sociais, nós os jovens, praticamente crescemos neste meio, fomos assimilando que todas as diferentes dinâmicas da vida têm de estar presentes nas nossas redes. Inconscientemente, segmentamos diferentes partes da nossa vida a distintas redes sociais, LinkedIn para o nosso currículo, Instagram para a nossa vida social mais plena, Twitter para as nossas opiniões e Facebook uma mistura destas componentes.

Sem darmos por isso, cada um de nós se tornou num Marketeer de nós mesmos, tentamos desesperadamente vender a nossa persona à sociedade, sem consentirmos fizemos de nós mesmos um produto. Se cegamente somos o produto, os likes, visualizações e comentários são a moeda de troca.

Não passamos de uma geração alimentada a dopamina virtual.

Se é verdade que a foto no resort em Tróia que a Pilar do Carmo Bettencourt publicou, ou a do Vicente Maria de Mello na sua herdade são sintomas claros de uma dependência de aprovação social e dopamina em forma de likes. Da mesma forma, também se torna evidente que aquela tua foto desfocada a proferir um discurso que tu categoricamente lá arranjas maneira de dizer que é indispensável à democracia não passa disso, de tu a correr atrás da dopamina.

Ao longo dos anos a estudar naquelas faculdades que toda a gente tem muitos apelidos tornei-me no que eu gosto de chamar de um connoisseur dos Rotaract. Este grupo de indivíduos, na sua maioria, resume a sua presença nas redes a fotos com calças bege, posts com tónicas de self-congratulation sobre uma qualquer nomeação e, o meu tipo favorito, posts sobre um qualquer podcast ou artigo de opinião que irá revolucionar a democracia, descobrir a cura para o cancro e ler o horoscopo do André Ventura, tudo isto num texto de 4 parágrafos.

Depois de vários anos de um estudo cientifico intensivo deparei-me com a constante de Planck dos Rotaract, 90% dos likes, comentários e partilhas às suas publicações “politicas” advêm de uma qualquer tia que vive na terrinha ou do seu próprio grupo politico, maçónico comprovando a tese de que tais posts não visam a promoção da Democracia, mas somente a cura à ressaca de dopamina digital, através de uma fútil tentativa de autopromoção. No final do dia tudo se mantém igual, o André Ventura continuará a frequentar o bairro alto, o Rui Rio fará rezas ao Deus Passos e a nossa Democracia permanecerá em queda com taxas de abstenção jovem altíssimas.

Enquanto nós jovens militantes brincarmos nas redes sociais aos políticos, tentarmos desesperadamente copiar aqueles que hoje estão no poder, e falsificarmos uma persona política estamos somente a repetir a fórmula que nos trouxe 70% de abstenção jovem nas eleições Europeias. Tal peça de teatro digital promove que não passemos todos de “jotinhas”, que têm as gravatas e os colarinhos das camisas tão apertados que se esquecem que são jovens.

Questiono-me, de que serve uma juventude de políticos bolorentos em corpos de jovens?

A psicóloga Vera de Melo afirma que, “O mundo não precisa de mais marketing pessoal, precisa de consistência e propósito, precisa que cada um de nós, no desempenho das nossas funções, faça as tarefas com paixão.”

O mundo e os jovens precisam que pares de dar palmadinhas nas tuas próprias costas, sai à rua, faz política para os jovens e não somente para o teu grupo de fornecedores de dopamina.

Já chega de masturbações ao teu próprio ego! A Democracia merece mais que isso, merece mais que fotos desfocadas num qualquer congresso!

Quero informar que se usas calças beges, és do Rotaract e postas fotos desfocadas em congressos este texto não passa somente de uma peça Humorística.
Se não o fazes, este texto é 100% não humorístico e não sejas como o gajo de calças bege.


Francisco colaço

Aluno de Direito na banheira e surfista na Nova School of Law. Admirador do Arnaldo Matos nos tempos livres

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