A Racionalidade da Emoção

“O espírito humano tende naturalmente para criticar porque sente, e não porque pensa”

O que nos move na política, a razão ou a emoção? A nossa opinião política é formada essencialmente pela nossa crítica à sociedade, e às políticas defendidas pelo nosso campo ideológico e pelo campo contrário, e, como a frase de Fernando Pessoa explica, as pessoas criticam mais por sentir, do que por pensar, e criticam tão mais, quanto mais sentem o tema em questão.

A política é, também, jogar com as emoções das pessoas, mas, em Portugal, não há um grande histórico de políticos que saibam usar a emoção para ganho político. Porém, recentemente, surgiu um político, André Ventura, que tem utilizado a emoção para controlar o espaço político mediático a seu belo prazer. André Ventura é quem neste momento decide o que se discute na agenda política mediática.

O racismo, a xenofobia, o machismo, ou a LGBTfobia são políticas que, para além de atentarem contra os indivíduos pertencentes a estas comunidades, provocam emoções muito fortes nas pessoas, e originam um número enorme de críticas, mais sentidas do que pensadas, de tal forma que sempre que um político tem uma atitude racista ou xenófoba, o debate político mediático centra-se à volta dessa atitude.

Ventura sabe disto, e usa-o para seu proveito. Vejamos, por exemplo, o caso da proposta da deputada Joacine Katar Moreira de devolver património às ex-colónias portuguesas, uma proposta que poderia gerar um importante e necessário debate sobre o colonialismo português e as suas consequências. Mas para evitar esse debate sério, André Ventura lançou uma afirmação racista (“Eu proponho que a própria deputada Joacine seja devolvida ao seu país de origem”), e com isto, a discussão passou a centrar-se à volta da atitude racista de Ventura, em vez de se debater o colonialismo português.

Esta é uma estratégia recorrente de Ventura: sempre que há uma discussão séria sobre algum tema, ele tem uma atitude racista ou xenófoba, de forma a causar emoções bastante fortes nas pessoas, e centrar o debate político mediático à volta dessa atitude. Com esta estratégia, André Ventura domina o espaço mediático, e alcança um protagonismo que de outra forma não conseguiria.

André Ventura não é nenhum génio, nem sequer o primeiro a utilizar esta estratégia, ele está somente a imitar outros líderes de extrema-direita, que já tiveram sucesso noutros países, como Erdoğan, na Turquia, que, quando quer desviar as atenções, faz uma afirmação machista para causar polémica. E perceber como funciona esta estratégia também não é muito complicado, difícil é contrariá-la, porque ela baseia-se na racionalidade da emoção.

Para derrotar esta estratégia, temos de lutar contra o espírito humano, e passar a criticar porque pensamos, e não porque sentimos.

Abel Costa

21 anos, estudante de economia, social-democrata

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