Abutres na Torre Bela

No ano de 1942, em Lisboa, Ortega y Gasset escreve o prólogo para o livro Veinte años de caza mayor, onde atesta que ‘’ao desportista não lhe interessa a morte do animal, não é esse o seu objetivo. O que lhe interessa é tudo o que antes teve de fazer para a conseguir, isto é caçar’’.

O abate em massa de animais que ocorreu na herdade da Torre Bela atenta contra os princípios éticos e lógicos da gestão de uma população animal e representa uma situação de destruição de recursos cinegéticos.

Apesar de estes animais não serem parte integrante do património genético das populações selvagens de cervídeos que habitam a Península Ibérica, mas sim descendência de animais importados e criados em recintos fechados, este tipo de situações não pode acontecer.

Como descrito pelo Clube Português de Monteiros no terceiro ponto do Código de Ética do Monteiro, a caça incide sobre o ‘’ acréscimo de animais bravios em cada ano observado’’, isto quer dizer que a população de uma espécie cinegética após uma época de caça nunca poderá ser inferior à população que existia na anterior época reprodutiva. A caça de montaria é uma atividade que assenta em princípios de sustentabilidade das espécies das quais depende e não pode ser utilizada como instrumento de extermínio.

A deputada Inês Sousa Real, num artigo de opinião ao Público, vem fazer uso deste acontecimento para tentar espelhar neste acontecimento todos os caçadores. Começa por atestar que a caça ‘’persiste numa sociedade muito distante dos tempos em que a conservação da biodiversidade e dos recursos naturais do nosso planeta não faziam parte da agenda política’’, tentando criar um antagonismo entre a caça e a preservação dos recursos naturais e pede a retirada das organizações de caçadores dos esforços de conservação, afirmando que “só servem para alimentar uma atividade lúdica sangrenta e branquear a verdade por detrás do extermínio de animais e do seu habitat”.

Podemos olhar para os casos de sucesso de recuperação da águia imperial e do lince ibérico, que só foram possíveis com as organizações de caçadores na linha da frente, onde desenvolveram esforços de intervenção sobre os habitats e de recuperação do coelho bravo, presa fundamental para estes predadores. Não se esgotam aqui os exemplos em que os caçadores têm um contributo positivo para as espécies cinegéticas. Os caçadores estão também na linha da frente no combate à mixomatose nas lebres, doença altamente contagiosa que até 2018 apenas afetava coelhos, recuperação do coelho-bravo, pedra basilar dos ecossistemas mediterrâneos e da proteção da paisagem agrícola e florestal portuguesa. Esta paisagem que sofreu nos últimos 50 anos alterações de forma e escala de uso, tornou-se menos favorável à existência das espécies sedentárias de caça menor, cabendo aos caçadores a sua recuperação que para além de favorecer as espécies cinegéticas favorece também todas aquelas que não o sendo partilham as mesmas necessidades.

Este esforço de inflamar a opinião pública, criando paralelismos entre este acontecimento e a realidade da caça vêm provar que são necessários casos que não representam a realidade da atividade venatória para tentar infligir danos ao setor. Vendo a mentira por trás das afirmações da deputada do PAN fico na dúvida se esta transmite informação deliberadamente errada ou não tem conhecimento da realidade que critica.

DAVID ALMEIDA

De Alcochete. Licenciado em Engenharia Florestal. Gosta ler romances e de dormir sestas depois de almoço.

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