A candidatura socialista

É um erro proclamar que a esquerda democrática socialista não tem uma candidatura nestas eleições. Essa candidatura existe, é forte, incómoda e representa os valores ideológicos para os quais anseia responder. De forma paradoxal, a única coisa que não tem é o apoio do core partidário de origem, que preferiu abrir caminho para um segundo mandato da direita na presidência da república.

As palavras anteriores não foram escolhidas ao acaso. Quando o maior partido português se coloca em corpo dormente nas eleições que elegem o chefe de estado, que tem um papel orientador e moral fundamental para a condução dos destinos do país, abre caminho a que o candidato bandeira do maior partido da oposição, com valores e visões muito diferentes para o país, conquiste o segundo mandato, sem grande espaço a debate e discussão, pelo menos da parte que ao PS toca.

Aos que votam hoje Marcelo pela garantia de estabilidade futura governativa aconselho a reverem (apenas, entre muitos exemplos) os debates destas mesmas eleições. Marcelo, já escrevendo o prólogo da sua ação futura, em momentos em que tinha que afirmar a sua posição de direita perante os eleitores, em duas semanas, reivindicou a demissão de uma ministra, deixou no ar que gostaria de demitir outro e puxou para si os louros do mais duro ataque ao governo da legislatura. Bastaram três soundbites, por candidatos virgens em política de alto nível, para trucidar a defesa da estabilidade governativa. Quem achar que na segunda metade de mandato o candidato não vai incorrer na tradição de reaproximação à família política, não entende que está perante um dos maiores camaleões políticos portugueses da era moderna.

Aos que votam hoje Marcelo por ser parte integrante do bom funcionamento governativo entendam que as grandes bandeiras reformistas socialistas são e têm sido travadas por este mesmo presidente. É interessante entender como “ir votar de olhos fechados” junta hoje socialistas e democratas cristãos em torno do mesmo candidato. A grande diferença entre eles é que do lado da esquerda houve bravura para assumir uma candidatura, sem apoio oficial, que represente os ideais em falta. Em outras hostes, faltou coragem política para tal.

A candidatura de Ana Gomes é hoje muito mais que um currículo invejável no espaço político nacional e internacional. A candidatura de Ana Gomes é a frescura reformista, com tese assente na liberdade, igualdade e fraternidade, que liderou a sua ação na comunidade ao longo dos anos.

Ana Gomes foi a única (retirando da equação o presidente-candidato) que lutou verdadeiramente pela presidência. Fora de candidaturas para afirmação política, com combate a doutrinas totalitárias e/ou fantasiosas, responsabilizando os irresponsáveis recentes, ou puxando por um lado (politicamente) mais agressivo do presidente vigente, afirmou em pleno os seus ideias: justiça, reforma, igualdade e combate ao ódio.

Ana Gomes foi a única a abordar a descentralização administrativa, no debate de todos, perante um silêncio ensurdecedor de todos os presentes.

Ana Gomes faz tudo isto e, sem temor das consequências políticas, tem tempo para corrigir os erros de percurso dos representantes governativos do seu partido.

Sem medo, com assertividade, com valores de esquerda e com a irreverência, tão típica das juventudes partidárias que por vezes se perde na aproximação aos corredores do poder, hoje Ana Gomes defende o país que eu quero, conquistando o meu voto. É a minha esperança para não assistir a uma coroação conduzida por um arcebispo da Cantuária que vista rosa.


Pedro gouveia

US Market Manager nas marcas de design mobiliário portuguesas DelightFULL e Essential Home. É também membro da comissão política federativa da Juventude Socialista Federação de Castelo Branco.

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