Eles andam aí

No domingo passado houve um vencedor e vários derrotados. O vencedor não foi o eleito e a principal derrotada foi a Democracia.

As eleições Presidenciais estavam já preparadas para ser um circo político, uma cerimónia em estado faz de conta para que fosse levada a cabo a legitimação de Marcelo Rebelo de Sousa por mais cinco ano em Belém. Foram, assim, eleições de barómetro eleitoral, em que 5 dos 7 candidatos eram partidários e dois independentes, o próprio Marcelo e a sua maior adversária, Ana Gomes. Era sabido que a vitória de Marcelo era certa, mas era desnecessário que se recusasse a fazer a devida campanha e que o debate de ideias ficasse reduzido a debates de 30 minutos em que pouco se falou do necessário e onde a informação que fazia falta não chegou ao eleitor.

Na verdade, Marcelo não ganhou nada, a não ser o facto de ter sido o mais votado em todos os concelhos, algo inédito, apenas viu confirmado um facto consumado desde o estranho fenómeno da Autoeuropa, uma vitória certa pela qual nem se esforçou, um dado adquirido quer pela Comunicação Social, que venera o candidato Presidente comentador, quer por alguns candidatos, que, desta forma, baixaram a guarda e fizeram com que o eleitor se questionasse “então porque é que é candidata/o?”. Marcelo fez aquilo que lhe é característico, vestir várias peles numa só pele, nesta campanha foi mais Presidente que candidato e aproveitou até alguns momentos de campanha para fazer anúncios ao país, fossem questões relacionadas com o Estado de Emergência ou com o seu estado de saúde (ficará na memória de todos, Marcelo, o candidato, a saber que, Marcelo, o Presidente, havia testado negativo à covid-19), algo que revela que, efetivamente, Marcelo nunca foi candidato, foi sempre o Presidente.

Confesso que estive até ao último dia de campanha à espera que Marcelo, candidato, que decidira fazer umas aparições esquálidas, fruto da pressão de outros candidatos e da sociedade civil para que se mostrasse ao povo, utilizasse uma vez que fosse o tempo de antena, não o que já habitualmente tem, mas sim o que é previsto por lei eleitoral, para se dirigir aos portugueses nessa condição. Não o fez, nem sequer para repetir, mais uma vez que fosse, o argumento de se recandidatar para dar cabo do maldito covid, pergunto-me sinceramente se alguém acreditou ou acredita nisso. Eleito que está e nada mais a declarar olhemos para os derrotados.

Vitorino, o nosso Tino, ficou em último lugar na tabela presidenciável, não foi surpresa nenhuma, estranho seria se assim não fosse, a não ser para o próprio e para a máquina de campanha doméstica. Nem em Rans, onde foi Presidente de Junta, conseguiu superar o Professor Marcelo, e isso diz tudo, este país que continua a dizer que os políticos são só doutores afinal prefere os doutores aos semelhantes, o que também não é novidade.

João Ferreira, o candidato sex-simbol, objetificado em redes sociais quase ao nível de ator galã por quem as fãs se perdem em calores, não conseguiu mais do que Edgar Silva em 2016, na verdade conseguiu menos três mil votos, na prática, foi o PCP só e apenas, o que não é bom em dois aspetos, primeiro, demonstra o que se teme há muito, o PCP está a perder força por falta de rejuvenescimento e pelo regresso de um certo conservadorismo ortodoxo, segundo, João foi um bom candidato, goste-se ou não, e usou aquela que deve ser a arma de qualquer candidato a Presidente da República, a Constituição, uma manobra inteligente e que demonstra o que deve ser assumido por todos, considerar que o PCP é extrema-esquerda é apenas estúpido, porque se fosse assim nunca defenderia, como defende, a manutenção desta Constituição.

Tiago Mayan, qual apóstolo dos liberais, o candidato da Iniciativa Liberal surpreendeu, começou por ser o adolescente da sala, ou seja, muita vontade mas pouca prática, os seus tremores nos primeiros debates denunciaram o que se suspeitava, nunca havia tido experiência política e era, obviamente, um estagiário a ser considerado, a verdade é que a timidez e a fragilidade foram sumindo e deram lugar a um homem que assume-se como liberal e sabe defender o que acredita, concordemos ou não (como eu) com a sua visão das coisas. Duvido que vá desaparecer, a sua votação foi à volta do dobro daquilo que o partido conseguiu nas Legislativas de 2019, o que é um bom indicador para o partido.

Marisa Matias, uma das grandes derrotadas da noite, eclipsou-se e, com risco, pode levar a que o partido venha a sofrer do mesmo mal. A sua candidatura foi um estranho caso de suicídio político, reconheço inteligência à candidata, mas isto foi um erro de cálculo. Deveria ter feito esforços para se unir a Ana Gomes e congregar uma verdadeira alternativa à esquerda para enfrentar Marcelo, mesmo tendo anunciado a sua candidatura antes de Ana Gomes, algo que facilmente poderia ter sido ultrapassado e ter levado a uma convergência à esquerda e a uma solução mais robusta, até porque feitas as contas percebe-se que grande parte do seu eleitorado votou em Ana Gomes e não em si. Esperemos que não tenha sido uma machadada demasiado forte para a sua carreira, a verdade é que perdeu 300 mil votos de 2016  nem a camapanha #vermelhoemBelém a salvou.

Ana Gomes, perdendo não deixou de ganhar, ganhou ao cumprir o objetivo de ficar em segundo lugar, ganhou ao ser a mulher mais votada de sempre numas Presidenciais. Mas não chegou, era preciso mais, era preciso uma união à esquerda, a começar pelo PS, que decidiu voltar as costas a estas eleições e à sua militante, à sua candidata, sim, porque para um verdadeiro socialista só Ana Gomes poderia personificar a escolha nestas eleições, goste-se ou não do seu estilo. E esta última parte foi o que prevaleceu, Ana Gomes perde por ter sido fiel a ela própria e isso é a maior incongruência de sempre, um país que diz que os políticos são uns mentirosos decide crucificar e apelidar de populista, a maior ofensa que se lhe poderia fazer, a candidata que diz o que pensa sem olhar a resultados eleitorais e até mesmo à sua carreira política, mas não diz sem pensar e isso foi o que muitos não se deram ao trabalho de perceber. Ana Gomes demonstrou com clareza, como sempre, e assertividade o que achava sobre os temas mais diversos e de forma consistente, argumentando e demonstrado o porquê de concordar com umas coisas e não com outras. Foi coerente até ao fim, e o mais ingrato é que foi isso que lhe tirou votos. A comunicação social ajudou à sua diabolização e a cúpula do PS mandou achas para a fogueira, num ato fratricida que interessou e interessa a alguns, afinal de contas Ana Gomes sempre foi a socialista que mais criticou o PS, percebemos que o “partido da pluralidade” está a deixar, perigosamente, de ser plural naquilo que toca à opinião e à crítica. Há que refletir.

Eis-nos chegados ao vencedor da noite, André Ventura, diga-se o que se disser, goste-se desta verdade inconveniente ou não (e juro que me enoja ter de reconhecer isto), foi o grande vencedor destas eleições. Não conseguiu ficar em segundo lugar, é certo, mas conseguiu mais votos que Marisa e João juntos, conseguiu mais votos que o PCP e que o Bloco nas Legislativas de 2019, conseguiu que perto de meio milhão de portugueses se considerassem “portugueses de bem” e conseguiu ser o segundo mais votado em grande parte dos concelhos, mostrando desta forma que não foi um “fenómeno rural”. Chegou, dividiu e veio para ficar e isso é assustador, o seu discurso anti-sistema é na verdade um discurso de ódio, do “nós e os outros”, do bem e do mal. Não quero acreditar que os portugueses estejam cegos, mas é impossível que não se reconheça que estão cansados, esgotados e maltratados e, obviamente, que a pandemia veio piorar tudo isto.

Os jogos de poder e os casos polémicos da política portuguesa afasta os eleitores dos partidos tradicionais, sim, desenganemo-nos, não são os portugueses que estão distantes da política, ou melhor, dos partidos, é o oposto. Andrezito está a conseguir o que sempre quis, provar que consegue agitar águas e consegue seguidores, não sabemos e dificilmente saberemos quem são, a verdade é que vários foram os eleitores dos 40 aos 60 que votaram pela primeira vez este domingo, e é óbvio o que os fez ir às urnas, convinha a CNE e o INE fazerem esse levantamento e termos a ideia de quantos foram estes casos. Quero acreditar que não passarão, mas a verdade é que estão mais perto que nunca.

E agora? Agora convinha refletirmos todos sobre isso, PS e PSD à cabeça, mas o que a noite eleitoral revelou foi uma triste e ridícula performance de César e Rio. O segundo estende não a mão mas o braço ao Chega, abrindo o PSD a entendimentos e fazendo corte ao líder de extrema-direita, por momentos pensei estar a ouvir o Diretor de Campanha de Ventura e não o líder do maior partido de oposição. O primeiro, querendo fazer um favor a Costa e Marcelo, acabou por fazer um favor a Ventura, aplaudiu entusiasticamente o candidato da direita, e isso foi um espetáculo triste, e negligenciou o perigo que o Chega representa, uma irresponsabilidade demasiado grande para quem é Presidente do partido que está no Governo, mas fez mais, informou o país que afinal o PS tinha ganho nestas eleições porque afinal Marcelo era o candidato dos socialistas, oficializou aquilo que já se sabia, a cúpula do PS está rendida a Marcelo, quais alunos embevecidos com o “professor cool”, mas esquecem-se que, nem uns nem outros, se encontram na Faculdade de Direito de Lisboa, e que o professor não é assim tão cool para a agenda que o Governo pretende levar a cabo e, se isto não bastasse, não percebem que isso simboliza que o PS, afinal de contas, se colocou de cócoras para a direita.

Se o centro não refletir nisto perdemos todos e poderemos perder demasiado. O alerta está dado e aquela que foi a maior derrotada da noite, a Democracia, sim porque colocar em segundo lugar quem é contra a Democracia é feri-la, tem de ser cuidada e tratada, um tratamento tão urgente como a vacinação anti-covid, ainda para mais quando a solução ainda não está à vista e em outubro há novas eleições.

Carlos Daniel Carreira

Estudante de Estudos Europeus na FLUL
Militante da JS e do PS
Torreense de gema, lisboeta de paixão, socialista convicto.
Dirigente associativo e ativista interventivo.

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