Presidenciais 2021: vamos fazer um rescaldo?

Marcelo Rebelo de Sousa – 60,7%; Ana Gomes – 13%; André Ventura – 11,9% João Ferreira – 4,3%; Marisa Matias – 4%; Tiago Mayan Gonçalves – 3,2% Vitorino Silva – 2,9%; Nível de abstenção a rondar os 60,5%.

Primeira conclusão: a abstenção continua a ser um problema estrutural das Democracias europeias.

Segunda conclusão: venha-se de onde se vier, apoie-se quem se tenha apoiado, a noite eleitoral teve um vencedor indiscutível – Marcelo Rebelo de Sousa. Em termos percentuais, vê a sua votação reforçada em sensivelmente 8,7% e entra num segundo mandato de cinco anos com aval popular reforçado graças à falta de oposição do PS e ao apoio do maior partido da oposição, bem como uma relativa popularidade e maneira própria de exercer a sua magistratura.

Terceira conclusão: o segundo lugar e, obviamente, o segundo melhor resultado pertencem à candidatura independente de Ana Gomes, que se viu sustentada por uns determinados sectores do Partido Socialista, o Livre, o PAN e outros eleitores independentes. Que se tente negar-lhe o mérito de ter tido a segunda maior votação, atribuindo a outras figuras (que não Marcelo Rebelo de Sousa) a ribalta da noite eleitoral, é desonesto.

Há outras conclusões que se podem retirar deste acto eleitoral: a fraca adesão dos eleitores no interior de Portugal, que se veem com dificuldade em ser representados nos corredores parlamentares e ministeriais de Lisboa; a votação superior de Ana Gomes em vários aglomerados urbanos litorais, que lhe garantiu o segundo lugar nos distritos do litoral (à excepção de Leiria); etc.

No entanto, gostaria de escrever sobre um discurso em concreto – uma análise feita pelo atual presidente do PSD, Rui Rio, aos resultados que, lá em cima, foram expostos.

Rui Rio destaca a vitória do candidato moderado e do centro – um que não estava nem à direita, nem à esquerda, e que conseguiu a maioria incontestável dos votos. Primeiro, gostaria de lhe perguntar onde estava quando, na TVI24, a debater André Ventura, Marcelo Rebelo de Sousa alega pertencer à direita social (e penso que, na sua longa istória política, MRS nunca negou ser um político de direita). Segundo, se admite puxar MRS para o centro, deslocando consideravelmente a Janela de Overton portuguesa, tenho curiosidade em saber onde posicionaria Ana Gomes (que, caso não saiba, deixou o PCTP- MRPP em 1976).

Segunda ilação que Rio retira: a grande derrotada é a esquerda, com os restantes candidatos fora desta área a atingirem um somatório de c. de 75% dos votos. Não estava ciente que todas as candidaturas à direita de Ana Gomes estavam coligadas e parece-me, seguindo este raciocínio, um pouco forçoso incluí-la na “grande derrota” da noite, uma vez que conquistou o segundo lugar (mesmo que não tenha obtido um resultado tão expressivo quanto se desejava). Talvez o presidente do PSD deva manter em mente a quantidade considerável de eleitores do Partido Socialista que optaram por votar em Marcelo Rebelo de Sousa, caso esteja a tentar transpor estes resultados para umas putativas legislativas.

Terceira ilação (e a final, neste ensaio): eleva a extrema-direita portuguesa por ter “destronado” o Partido Comunista no Alentejo, ao conseguir ser a segunda candidatura mais votada em muitos concelhos. A análise à dispersão do sufrágio na noite seguinte já desmentiu Rui Rio: o eleitorado comunista manteve-se fiel e a segunda candidatura mais votada beneficiou de votos de eleitores pela primeira vez, do PSD e do CDS.

Agora, quero abordar a questão que forçou David Justino a entrar nos órgãos de comunicação social com um extintor para extinguir o incêndio que Rui Rio começou: a nota dos resultados do Alentejo deixa a abertura para que o candidato de extrema-direita anuncie não ser possível um governo do PSD que não inclua o apoio do seu partido.

Ora, vamos lá ver o que implicaria isso:

A casa que temos pode ter deixado de servir no estado actual em que se encontra – pode estar a precisar de remodelações ou, até, de algumas alterações estruturais. A extrema-direita portuguesa, por admissão própria, não tem interesse numa remodelação: quer deitar a casa abaixo. No seu lugar, ainda não percebi se quer construir

um apartamento ou um restaurante (o conteúdo programático apresentado e o conteúdo discurso nem sempre são os mesmos).

Traduzido por miúdos, a extrema-direita não apresenta propostas de reformas para o sistema atual, simplesmente quer trocá-lo por outro que tem dificuldade em definir.

Um conhecido historiador de esquerda, num ensaio1, atribui a falta de resposta a este fenómeno aos seguintes factores: a implosão do Campo de Leste, que descreditou os principais sistemas económicos alternativos e as suas ideologias sustentadoras; e o desarmamento da social-democracia pela Terceira Via, que pôs em causa a sua base ideológica e a afastou do keynesianismo e da filosofia política da esquerda (uma escolha conjuntural que, antes de ser vilipendiada, deve ser lembrada como aquela que entregou várias vitórias aos partidos do centro-esquerda, antes de causar a sua repentina derrocada).

Com as alternativas credíveis em crise, os descontentes e marginalizados pela crescente financeirização e mercadorização global escolhem outro rumo, o extremo da direita que, mantendo o substrato económico na mesma, procura dar abalos às Liberdades e aos Direitos conquistados.

Isto não é, ou não deveria ser, uma luta entre Esquerda e Direita, como indica Rui Rio. É uma luta entre fascistas e antifascistas e, quando chega à derradeira hora, não deveria haver qualquer hipótese de rendição por quem se diz democrata a quem quer destruir a democracia.

É altura de nos deixarmos de sectarismo e percebermos que é aquique estamos no mesmo barco: por muito que possamos divergir, conseguirmos reunir em torno da ideia que um retrocesso é categoricamente indesejado. Isto não é uma luta apenas do PS, nem da restante Esquerda. Também é de qualquer força que se queira dizer democrática, e é bom que percebam isso enquanto podem.

1 Rosas, Fernando. Salazar e os Fascismos. Lisboa: Tinta da China, 2019.

manuel martins

Presidente da JS das Caldas da Rainha. Estudante de História na UNL/FSCH. Fanático da UE, fã de Gorbachev e António Arnaut

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