Parece impossível…

Parece impossível… política com base no ódio por todo o lado… vimos os Estados Unidos da América, o Brasil, vários países da Europa… que horror! Por cá, respirava-se de alívio. “Ainda saímos da ditadura há pouco tempo”, “os portugueses têm brandos costumes”, e outras explicações se davam para isto, felizmente, não nos atingir.

Infelizmente, atingiu-nos mesmo, e vem em força, como uma ameaça enorme. O maior problema, de facto, não parece ser o político que promove estas políticas, com discursos contraditórios e propostas e ações que claramente parecem feitas de forma deliberada, por forma a que não sejam prosseguidas (veja-se projetos-lei propostos ao Parlamento com inconstitucionalidades nem disfarçadas e ações intentadas em tribunal, redigidas por forma a serem perdidas). Este discurso afigura-se como uma estratégia copiada do estrangeiro que leva a pessoa em questão, diga-se André Ventura, a uma posição de poder. Aquilo que é realmente preocupante é a normalização de discursos de ódio que haviam sido ultrapassados, e que há meia dúzia de anos eram considerados atrozes e inadmissíveis numa política civilizada. Como é que tal terá sido conseguido? Provavelmente, com recurso a três estratégias: demonização da esquerda, legitimação dos pensamentos de ódio, e pretensa resolução de problemas.

Em primeiro lugar, demonizando a esquerda. Isto não é algo novo, e é uma herança do Estado Novo. Quantas vezes ouvimos já alguém usar o termo “comuna” como um insulto, ou como um adjetivo pejorativo? Numa grande parte dos casos, quem o usa são pessoas que foram privilegiadas no tempo ditatorial português, que enriqueceram à custa de apoiarem um regime opressor, e que passaram, portanto, a odiar quem lhes tirou os luxos que tinham nessa altura. Além disso, estas pessoas, obtendo vantagens pelo regime, foram, de certa forma, forçadas a aderir a toda a sua propaganda ideológica. A obrigatoriedade do ingresso na Mocidade Portuguesa, a propaganda extrema a que as pessoas eram expostas, e tudo o que lhes era incutido de forma muito veemente torna estas pessoas, de certa forma, vítimas do regime. Mais a mais, não havia possibilidade de contraditório, pelo que a única hipótese possível era aderir ao que era dito. Acabaram, então, por educar assim os seus filhos, que são, atualmente, pessoas em idade adulta e ativa, tendo muitos deles aderido a estas narrativas, por educação incutida pelos seus pais.

Este ódio gerado chega a tal ponto que não permite que estas pessoas pesquisem acerca das ideologias em causa, não permite ouvir de mente aberta aquilo que qualquer pessoa que se autointitule de esquerda tem para dizer, e não permite perceber que muitas destas pessoas concordam com ideais de esquerda, ainda que de forma moderada. Está, então, a ser muito bem instrumentalizado, num momento em que não existe uma direita forte que se proponha a agir e a tentar resolver problemas das pessoas. Deste modo, o facto de passar a haver, pela primeira vez, alguém que levanta a voz para dizer que a esquerda é má por si só, que é intrinsecamente má, e que os esquerdistas são todos maus e ditadores comunistas, faz com que todas estas pessoas que sempre pensaram isto se sintam legitimadas, e julguem que “finalmente existe alguém que não tem medo de vocalizar aquilo que eu penso”. Na verdade, até ser fundado o Chega!, ninguém vocalizava isto porque existia um respeito de parte a parte, em que, apesar de tudo, havia debate de ideias, e tanto a esquerda como a direita se propunham a ouvir e a deixar que o outro lado falasse, embora existissem muitas

discordâncias totais, o que é normal e saudável para a democracia. Mas, agora, existe alguém que faz pensar que é normal e legítimo odiar a esquerda, e que finalmente a vai combater e “mandá-los abaixo”, com recurso à falácia da falsa causa, dizendo que toda a esquerda leva à ditadura, descurando o facto de muitas ditaduras que existem e existiram no mundo serem de direita, o que prova ser algo muito pouco relacionado com ideologia (dado que esquerda e direita são visões económicas).

Em segundo lugar, legitimando os pensamentos de ódio que existem nas pessoas. De facto, sempre houve uma grande quantidade de pessoas com pensamentos preconceituosos e discriminatórios, verbalizados em momentos mais descontraídos, com pessoas mais próximas, por ser algo considerado como errado pela sociedade (e bem!). A certo ponto, aparece alguém que confunde o mínimo ético nos discursos com o “politicamente correto”, utilizando o referido discurso de ódio que muita gente reprimia em si. Com isto, estas pessoas passaram a sentir-se legitimadas nos seus preconceitos, e no ódio a grupos específicos de pessoas. A isto, alia-se o facto de existirem problemas na sociedade, como o facto de alguns cidadãos não sentirem que o Estado lhes garante aquilo que “merecem”, tendo em conta os impostos que pagam, e, desta forma, o facto de se atribuir a culpa dos problemas do país a um determinado grupo étnico faz com que as pessoas não só sintam que estes seus pensamentos são, afinal, legítimos, como que as ações de ódio resolverão os problemas de Portugal, quando, na realidade, os maiores problemas advêm muitas vezes de pessoas pertencentes às maiorias, identificadas por estas pessoas como os “portugueses de bem”. Mais: o discurso dos “portugueses de bem” não só dá a entender que há portugueses de primeira e portugueses de segunda (ignorando o princípio do Estado de Direito Democrático, de onde decorre a dignidade da pessoa humana), como dá a entender que quem não é português não merece em Portugal o mesmo respeito e direitos que os portugueses. Infelizmente, esta ideia divisionista também cresce quando há problemas e alguém nos diz que o problema está nos outros. Efetivamente, é mais fácil e alivia mais pensar que os problemas advêm de pessoas de fora, e que nada têm a ver connosco. A dicotomia entre “nós” e “os outros” tira todo um peso de cima a quem faz parte do “nós”, criando-se, muitas vezes, um distanciamento, em que deixamos de ver “os outros” como pessoas, e encarando “os outros” que são próximos e de quem gostam como exceções à regra.

Em terceiro lugar, denunciando problemas existentes, demasiado complexos para serem resolvidos de forma rápida e eficaz, apresentando soluções simples. Os problemas, de facto, existem, e é isso que apela aos cidadãos que os sentem. É realmente apelativo ver alguém a falar dos problemas com que nos identificamos. O problema, aqui, é que existe um assoberbar de certos problemas que não possuem grande relevância no nosso país (sendo, muitas vezes, casos isolados, ampliados pela comunicação social mainstream), e são-lhes oferecidas soluções completamente contraproducentes e atentatórias do Estado de Direito Democrático. Tanto é, que chegam a existir eleitores que apoiam estas ideias não por causa do discurso de ódio, mas apesar dele, atribuindo o mesmo a uma certa imaturidade que se espera vir a desaparecer com o tempo. Quanto a isto, faz muita falta a literacia no cidadão comum. Efetivamente, o facto de parecer ser tão fácil aceder a informação faz sentir às pessoas que se encontram informadas, mesmo quando a informação que têm é falsa,

tendenciosa ou insuficiente. É necessário fazer ver-se que os problemas existentes podem ser resolvidos dentro da Democracia, embora seja algo demorado, e que é algo em que é necessário trabalhar ao longo do tempo, para que se vejam resultados ao fim de vários anos.

Tudo isto se alia à plataforma dada pela comunicação social e ao apoio de uma certa classe política. Com efeito, discursos abjetos são lucrativos, dado que, por um lado, quem deles gosta é atraído pelos mesmos, e quem não gosta ou reconhece o seu perigo vai ver para estar informado, e, portanto, este é um fenómeno gerador de audiência e, consequentemente, de receitas, pelo que é a opção mais racional para os órgãos de comunicação social noticiar de forma muito chamativa tudo o que André Ventura faz ou diz. E isto é uma excelente plataforma para difundir o discurso de ódio e atribuir rótulos a todos os restantes membros da classe política (no caso das presidenciais 2021, Marisa Matias era “a do batom vermelho” (com a conotação de antigamente que isso tinha), Ana Gomes “a candidata cigana”, João Ferreira “o ditador comunista”, e outros rótulos que, por repetição, acabam por ficar presos às pessoas a quem são atribuídos. Mais a mais, pessoas que se dizem moderadas, como o Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, atribuem legitimidade a este discurso, afirmando apenas discordar. Isto é problemático, em primeiro lugar, porque ajuda a dar visibilidade e, em segundo lugar, porque contribui para a demonização que querem combater este tipo de ideias com tudo o que têm por reconhecerem o quão inadmissíveis são num Estado de Direito Democrático.

Quanto a tudo isto, o que fazer? É uma pergunta com múltiplas respostas e ainda sem nenhuma aparentar adequada. A tentativa de não se “dar palco” ajuda à narrativa da vitimização e demonização de quem o faz, a tentativa de vencer pelas ideias não funciona, porque estamos perante estratégias que tornam o debate impossível (como a repetição de um rótulo quando um adversário em debate fala, para que haja uma associação inconsciente), e porque muito do que é dito pela pessoa em questão é na base de mentiras. Ora, havendo alguém em quem a população acredita, por dizer o que querem ouvir, a fazer algumas afirmações como sendo factos, torna-se quase impossível provar o contrário, porque as pessoas que não querem ser bem informadas não o são.

Trata-se de um problema em curso um pouco por todo o mundo, sendo de extremo perigo para todas as liberdades até à data conquistadas, mas que apenas seria combatido com verdadeira literacia histórica e política, o que, como sabemos, demora gerações a atingir. Sempre me custou ouvir comentários levianos sobre temas tão complexos como a imigração, multiculturalidade, criminalidade, corrupção e outros que tais. Tudo isto provoca problemas sociológicos tão complexos que é impossível dar respostas definitivas para os mesmos, além de que todas as soluções demoram anos, gerações, a obter resultados. De facto, no nosso país, grande parte dos problemas relacionados com estas questões encontram-se a ser resolvidas, e basta recorrer a estudos estatísticos para aferir isso. Contudo, com o aumento da transmissão de notícias, a perceção das pessoas encontra-se enviesada e, por exemplo, com a criminalidade a descer, muitas pessoas percecionam-na a aumentar por alguns órgãos de comunicação social lhes fazerem chegar os casos que ocorrem.

Isto tudo para dizer que não tenho uma solução para a questão do crescimento da extrema-direita, mas o primeiro passo para tentar chegar a ela é a explicação das razões do problema, para se tentar procurar uma estratégia que resulte, e que salve a nossa tão preservada democracia.

INÊS NABAIS DO PAULO

Estudante finalista de Direito, alfacinha de gema, desnaturada filha de família conservadora e ávida ativista de mesa de jantar.

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