Verdade Inconveniente para a Hipocrisia Endémica

Vivemos num período conturbado, em que factos científicos são negados em prol de interesses políticos e utilizados como armas de arremesso. Tomemos como exemplo a própria pandemia pela qual atravessamos. Grande parte do negacionismo em torno dela é proveniente principalmente das alas conservadoras que se deixam ir por demagogias populistas. Não por falta de credibilidade nos factos em si, mas sim, em quem os divulga ou recomenda o que subsequentemente anula (aos olhos dos mesmos) qualquer tipo de credibilidade e veracidade que esses fatos carregam em si. Digamos, quase que como um epítome do “vou comer de boca aberta só porque os meus pais me pediram para não o fazer” mas, neste caso, na versão adulta no qual para além de ficar mal na imagem, são responsáveis (in)diretamente pelo efeito dominó que começa nas redes sociais e acaba numa fila de ambulâncias no hospital de Santa Maria.

Multiplicam-se as páginas nas redes sociais que teimam em aderir e difundir uma retórica indesejável sem qualquer tipo de base factual (a não ser que consideremos fóruns no 4Chan, Instagram, Twitter e Zé Manel no Facebook como fontes fidedignas de informação). Desde teorias da conspiração que a terra é plana, que as vacinas causam autismo, que o nacionalismo alemão do século passado não era de extrema-direita mas sim de esquerda por ter “Nationalsozialismus” no nome e, mais recentemente, como que consequência de um “ripple effect” proveniente da derrota de um demagogo nas presidenciais, que as eleições portuguesas estão a ser alvo de fraude eleitoral.

Existe de facto um fervoroso debate relativamente ao papel das corporações que controlam as redes sociais na difusão desta desinformação que assola a contemporaneidade. Esta inação da parte dos mesmos culminou nos eventos fatídicos ocorridos no dia 6 de Janeiro no símbolo máximo da democracia americana. Somente a posteriori  é que as redes sociais decidiram banir a laranja com bronze artificial das suas plataformas. Os danos já foram perpetrados e agora debate-se se as mesmas deveriam banir (e bem) qualquer tipo de conteúdo que não seja factual, que apoie teorias da conspiração infundadas e que incitem ao ódio e à violência. Para os mais conservadores, isto seria um atentado à liberdade de expressão e, curiosamente, os mesmos incautos não demonstraram a mesma indignação para o atentado ao baluarte da democracia e liberdade no dia 6 em comparação com as vandalizações e saques ocorridos durante o movimento #BLM.

O movimento #VermelhoEmBelém foi correspondido com o dos #LábiosNegros muito à semelhança quando se proclamava #BlackLivesMatter e uns energúmenos decidiram criar #AllLivesMatter e #BlueLivesMatter. Utilizaram a retórica de que, combater a violência de alguns membros radicados que pertencem às forças de segurança (que para eles é uma história fictícia criada pelo Avô Cantigas) é o equivalente a querer executar todos esses membros de segurança e extinguir as mesmas. Mas, tal como o “troca-tintas” do Dr. Rui Rio que reiterou que não haveria coligações com o Chega (ler isto em sotaque açoriano), parte desses seres ficaram indignados quando as forças de segurança se opuseram aos manifestantes que invadiram o Capitólio, chamando os mesmos de traidores, agredindo-os e resultando na morte de dois agentes. Aquilo não são extremistas que negam a existência de qualquer tipo de violência e preconceito contra minorias. Aquilo é a gente do bem, patriótica e que defende as forças de segurança. Aliás, ninguém pode desrespeitar as forças de segurança (exceto se tiverem um crachá no seu casaco a dizer que defenderam o #BlueLivesMatter). O que posso retirar disto é que estas pessoas são lobos em pele de cordeiro, não querem saber mais das forças de segurança do que um cidadão comum. Só demonstram preocupação pelas mesmas em casos polémicos nos quais um membro radicado é julgado por abuso de força e desatam a utilizar os chavões do costume sustentado por uma retórica hipócrita, populista e demagoga.

Infelizmente, para esta pandemia de desinformação e demagogia não existe uma vacina 100% eficaz. Cabe-nos a nós, cidadãos comuns, manter as forças políticas e entidades singulares e coletivas “accountable” pelos seus atos e palavras. Não podemos ceder na tentação de cair em argumentos falaciosos sem base factual ou em promessas vãs. No fim do dia, confrontemos as palavras e ações com factos, com provas, comportamentos consistentes e, mais importante, não tolerando a intolerância (frase mais clichê mas tão contemporânea).

FRANCISCO OLIVEIRA

Estudante no mestrado de Estudos e Gestão da Cultura no ISCTE-IUL. Adoro viajar, estar com quem mais prezo e ridicularizar extremismos empregando inúmeras figuras de estilo (isto não é uma hipérbole, adoro mesmo).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s