De olhos bem abertos

Entrei na idade adulta em ano de pandemia. Muito do que era até então garantido começou a tornar-se um privilégio e mesmo uma impossibilidade. Festas. Estar entre amigos. Afetos. Hoje muita coisa é-nos proibida temporariamente em função de um bem maior – o da saúde dos mais idosos e dos mais frágeis. Mas confesso que tenho medo. Medo que o que são medidas provisórias para tentar conter uma pandemia, possa vir a tornar-se uma realidade mesmo após termos ultrapassado a mesma.

Já antes da pandemia víamos situações em que os direitos das pessoas eram postos em causa. Como mulher, tenho preocupações acrescidas. Em tempos de crise é sempre o nosso género o mais prejudicado. E a títulos de exemplo, vemos agora em países como os EUA e a Polónia a legislação referente ao aborto muito mais restritiva, tal como a crescida de movimentos que o querem ilegalizar totalmente. Estas medidas são retrocessos que põem em causa não só a saúde e liberdade de escolha da mulher, como condiciona o seu papel na sociedade. Será isso que muitos pretendem?

Estamos numa época em que o Presidente da Organização dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, Yoshri Mori, achou aceitável comentar numa reunião do Comité Olímpico aberta à comunicação social, “que as mulheres eram muito faladoras” e faziam “as reuniões prolongar-se muito”. A cereja no topo do bolo veio quando, questionado sobre este comentário, acrescentou que os membros femininos do órgão a que presidia “sabiam o seu lugar”. E porque não há duas sem três, ainda tivemos um comentador, em Portugal, em pleno “Jornal das 8” a desculpar o “desabafo” do senhor.

Pois, porque aqui em Portugal, também temos os nossos exemplos. Não foi assim há tanto tempo que militantes do CHEGA! foram, na sua Convenção, chamados a votar numa moção que propunha que as mulheres que abortassem no Serviço Público de Saúde por razões que não fossem de perigo de vida e malformação do feto ou violação, vissem os seus ovários retirados. É verdade que a proposta foi rejeitada pela maioria, mas, de acordo com a comunicação social, dos 254 delegados, 38 votaram a favor da mesma. Assustador.

Ainda mais recente foi o comentário do líder desse mesmo partido, André Ventura, que achou adequado criticar a cor do batom de uma candidata à Presidência da República como se isso a definisse ou denegrisse. É verdade que isto gerou um movimento de apoio “#vermelhoembelem” que contou com mulheres e homens, mas é chocante como, em pleno século XXI, um argumento “à velho do Restelo” sobre o batom vermelho foi utilizado e considerado aceitável por alguns, entre os quais mulheres, que em resposta, geraram um “pintem os lábios de luto pelo país”, como se os problemas do país desculpassem o comentário machista do “senhor” em causa.

Nas redes sociais, esta situação é muito flagrante. Basta ver os comentários a que são sujeitas as mulheres quando escrevem um artigo ou fazem um comentário com o qual outros não estão de acordo. Se bem que as redes sociais são um local onde muitos descarregam as suas frustrações, quando o fazem em relação a uma mulher, são muitas vezes visíveis comentários misóginos, abusivos e com conotações e até ameaças sexuais que não são utilizados como resposta quando discordam de um homem.

Na Justiça também sinto que são constantes as situações em que a violência contra as mulheres é desvalorizada. Suspeito que se apanha mais cadeia por roubar um carro que por colocar uma mulher no hospital com o maxilar partido ou abusar sexualmente da mesma.

Temos ainda o problema da desigualdade salarial. Porque é que sistematicamente as mulheres ganham menos que os homens? Já existe legislação para tentar por fim a esta situação, mas a verdade é que muitos dos empregos com salários mais baixos são das mulheres, quando outras profissões que requerem o mesmo nível de formação e experiência exercidas por homens são muito melhor remuneradas. As mulheres ocupam posições em que o salário mínimo é mais frequente e existem muitos setores onde a mulher é sub-representada, nomeadamente em profissões e setores mais bem pagos. Ainda hoje as mulheres têm de trabalhar mais 52 dias para ganhar o mesmo salário de um homem.

Existem mais mulheres a estudar nas universidades portuguesas que homens. Mas nem isso nos impede de ver que a diferença salarial por género é mais acentuada nos níveis de escolaridade mais elevados, chegando aos 26%, de acordo com um estudo divulgado pela CGTP. Estas diferenças salariais verificam-se em todos os grupos etários. Um estudo do ISEG, em 2020, identificou que esta diferença não diz respeito só aos salários base mas também aos prémios, horas extraordinárias e subsídios. Não admira, pois, que um maior número de mulheres esteja em situações de maior precaridade laboral e, com isso, em situações sociais mais vulneráveis. E a pandemia só veio agravar a situação ainda mais.

Esta pandemia veio causar uma crise como nunca antes vista, e são nessas alturas, com o acentuar das desigualdades, que se procuram bodes expiatórios, que uns se aproveitam para tirar direitos, para fazer mudanças que de outra forma não seriam aceitáveis. O desemprego que esta crise irá gerar, se não for bem gerido, poderá conduzir a ainda mais retrocessos nos direitos e liberdades das mulheres.

Temos também o exemplo do que aconteceu após a 2ª Guerra Mundial, com o regresso dos homens da guerra. As mulheres, que antes tinham sido chamadas a trabalhar nas fábricas para manter os países a funcionar, foram “recambiadas” para casa, perdendo a liberdade e os direitos que haviam conquistado nessa altura.

Numa época em que vemos forças da extrema-direita a crescer, temos que acautelar para que esta crise não sirva como desculpa para condicionar ainda mais a mulher. Com tudo o que se vai ouvindo pelo mundo fora, temos que ficar com os olhos bem abertos. Todo o cuidado é pouco.

Petra Peralta Salvador


Estudante de História da Arte na FLUL.
Bailarina e desenhadora nos tempos livres. Viciada em pão de ló.Socialista.
Eterna sonhadora, que acredita num Portugal melhor – para todos!

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