Como a Pandemia nos ensinou sobre a utilidade do Estado e o poder dos Leviatãs

Se alguma vez duvidaste da utilidade do Estado então uma pandemia veio mesmo a calhar. Se pensavas que o Estado era um mal necessário, que por isso teria de ser tão pequeno que mal se deveria ver, os teus sonhos terminaram. Agora até os teus amigos liberais admitem que em tempos de emergência o Estado tem as suas responsabilidades, e até dava jeito ter a força de um leviatã. Afinal os mercados não sabem lidar com catástrofes, só os leviatãs públicos têm essa força.

Pois é, vivemos tempos de glória para os defensores do Estado forte. Viveremos se ainda houver forças no Estado, se tiver o devido arcaboiço para conseguir lidar com o caos. Agora ninguém se vai opor à intervenção, ao controlo da economia e até a distribuições de riqueza, que no nosso caso surgem mais na forma de atenuação da pobreza. Mas assim que os ventos da pestilência se dissiparem não duvides: os liberais voltarão à carga com os seus leviatãs sem açaime. O poder massivo do Estado será novamente colocado em causa, demonstradas todas as suas ineficiências e efeitos destrutivos secundários. Por isso será atacado e enfraquecido, ao ponto de se transformar novamente numa lombriga que ninguém quer pegar.

Mas as catástrofes nunca cessam. O que muda é a abrangência e intensidade das mesmas. Podemos dar-nos ao luxo de dispensar a intervenção do Estado se provarmos o luxo diariamente. Vamos querer sempre mais, e qualquer imposto ou limitação da livre exploração do outro será sempre visto como um entrave à liberdade pessoal de ser um animal capitalista.

Mas a miséria humana é uma catástrofe permanente, desde o pequeno caso à multidão. Nunca a conseguimos eliminar sem um combate permanente. É como uma pandemia para a qual não há qualquer vislumbre de vacina, e uma calamidade para a qual a força dos leviatãs não tem sido convocada.

Esta coisa de atacar os capitalistas parece tão século XIX, não é? E a alusão aos leviatãs ainda mais desatualizado. Seria se pensarmos em fábricas e montes de notas, quiçá uns chapéus altos para representar os nossos capitalistas, e num monarca absolutista para descrevermos os nossos leviatãs. Mas o capital já não é o que era. E a força coletiva informada, ou manipulada, tem um inegável poder avassalador.

O capital digitalizou-se e é sinónimo de conhecimento. Uma transformação que nem por isso gerou menos desigualdades. Num mercado da informação dominado por mentiras e falsidades, onde as manipulações têm mais procura que a verdade, a mentira transforma-se em bem de consumo, alimentada por meios de produção próprios. Saber continua a ser um exercício de poder, como sempre foi. Mas conhecimento e dinheiro fundiram-se em matilhas de leviatã, tão fortes que nem os Estados os conseguem contrariar.

Temos cada vez mais informação, mas não questionamos verdadeiramente o seu poder. Perdemo-nos ainda nos pormenores, nos efeitos aparentes das redes sociais e afins, nas distrações dos cliques. Populismos e bolhas, coisas recorrentes que sempre existiram, mudaram de mãos. A razão de tudo e o objetivo continua a ser o poder, o poder de ter poder e de o ver crescer, de dominar o círculo vicioso que ciclicamente alimenta o vicio do poder. Com poder tudo é possível.

O Estado chegou quase a ter o monopólio desse poder, quase foi um leviatã hobbessiano, mas nunca vingou no seu desejo de justiça por ter sido alimentado por tirania. O Estado assim malformado ainda existe, enfraquecido de poder e degenerado por uma democracia que não evoluiu. Já os novos leviatãs, aqueles do conhecimento-dinheiro, correm livremente, atacando outros, principalmente a memória do que poderiam ser os Estados fortes e democráticos.

Um leviatã não é propriamente simpático, mas se controlada a sua força bruta e avassaladora, o monstro pode construir em vez de destruir. É esse tipo de leviatã que queremos, um que possa equilibrar os outros, deixando um rasto de desenvolvimento coletivo sem tiranias.

Sendo tu um cidadão comum, assim bem médio, já deves ter adormecido. Acorda, não abdiques de alimentar o leviatã coletivo. Sem ele não poderá existir e evoluir o serviço coletivo de saúde que trata todos por igual. Podes descansar se ele se fortalecer. Serás atendido mesmo que não tenhas a conta bancária recheada. Podes querer perceber como funcionam o mundo dos leviatãs, incluindo os do novo capitalismo, podendo estudar no ensino público. Podes trabalhar e descansar depois. Podes ter apoio social porque nas lutas entre monstros, devido aos desfechos imprevisíveis dos campos de batalha, podes ficar sem subsistência. Imagina que tínhamos abdicado do

Estado, quem te iria proteger na luta entre leviatãs? Imagina que tínhamos um Estado como o maior de todos os leviatãs ao nosso serviço!

Mas o Estado, como leviatã que é, não é um animal meigo. É dado a descontrolos, pode atacar por cegueira e fúria, e ser massivamente destrutivo. Por isso tem de ser controlado, para que não seja como os outros da sua espécie. O Estado enquanto leviatã está longe de ser perfeito, mas se o transformarmos numa lombriga de que nos servirá?

micael sousa

Doutorando em Planeamento do Território na Universidade de Coimbra. Co-fundador da Associação Astericos.

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