Transociedade de informação, a teoria do caos e o equilíbrio tecno-social

Numa sociedade com cada vez mais conhecimentos, sociais e tecnológicos, propulsionando para grande capacidade de efetuar mudanças súbitas, existem grandes riscos relacionados com a assimetria de informação entre os diversos grupos sociais, fragilizando a eficiência e até fazendo perigar drasticamente equilíbrios, ambientais e sociais.

Por exemplo, esta assimetria informativa dificulta a comunicação entre classes profissionais que têm de colaborar no sistema económico. Nomeadamente, na fratura entre o sistema financeiro e o sistema produtivo, traduzindo-se, com excessiva frequência, em crises financeiras, estagnação do investimento e crédito malparado.

A assimetria informativa, no quadro concorrencial, coloca também em risco a própria eficiência produtiva, por exemplo, através do sistema de patentes e os segredos diversos que as organizações escondem. Estes obstáculos à circulação de informação não só baixam a eficiência, mas colocam, também, em risco muitas organizações que vão ficando para trás, desgregando-se e causando ondas de mau estar, choque económico e social que se repercutem por toda a sociedade, hoje muito conectada globalmente.

A assimetria informativa faz-se, também, sentir no perigo que constitui para a democracia a falta de informação do cidadão e consequente dificuldade em avaliar políticas e seus efeitos numa sociedade poli fatorial. Hoje todos votam em todos os assuntos (ao escolher um governo e seu programa) sem que ninguém saiba, profundamente, avaliar nenhum dos temas das complexas sociedades modernas.

Não podendo as governações ser objetivamente avaliadas, estas tendem para o imediatismo e mediatismo, chegando mesmo até a manipulação informativa e transmissão de mentiras difíceis de detetar pelo público. A crise ambiental e as crises orçamentais são produtos exemplares do estado frágil da atual democracia.

É, ainda, a assimetria informativa, entre produtor e consumidor, que gera um mercado pouco propenso à qualidade, no qual em que o consumidor necessita de ser protegido e informado por instituições isentas e extra mercado. Com produtos cada vez mais complexos disponíveis no mercado, o risco de produtos defeituosos e de baixa qualidade anda a par com o risco de custo excessivo dos produtos (gerando lucros muito maiores que os necessários para incentivar a produção inovadora), bem como anda a par com o risco das externalidades, isto é, anda a par com os efeitos colaterais dos produtos na saúde humana, no ambiente e no tecido social.

Por último, o crescimento exponencial de informação torna obsoleta certas classes profissionais substituídas por outras mais especializadas. Esta substituição de classes não é fenómeno recente. Por exemplo, já durante o milénio anterior a aristocracia foi substituída pelos juízes, militares milicianos e capitalistas.

Hoje assistimos à gradual substituição dos capitalistas pelos bancários, gestores, técnicos e empreendedores. A substituição de classes tenderá a ser cada vez mais frequente e mais ampla, tornando-se mais fraturante do que a tradicional luta de classes e criando um caos de classes.

De facto, a lei da oferta e procura induz enormes mais valias inúteis (maiores que as necessárias para incentivar as classes a desempenharem com excelência o seu trabalho).

Como se torna muito difícil saber quais as mais valias necessárias para este incentivo, as classes envolvem-se em lutas pelo acesso a mais valias, manipulando informações e culturas que legitimem as suas enormes mais valias.

Embora limitado, o referido critério do incentivo, pode ajudar a resolver estes tipos de conflito de classes, mas parece impotente perante o conflito advindo dum número cada vez maior de indivíduos substituídos pela inteligência artificial e incapazes de se inserirem no mercado das classes profissionais. Só pagamentos sociais a este grupo excluído, para adquirirem novos conhecimentos e competências, potencialmente úteis no mercado de trabalho, bem como para adquirirem competências políticas, cívicas e sociais, possam trazer este conflito para a égide reguladora do critério do incentivo. Isto é, eles receberiam a parte do rendimento social global que seria necessário para os incentivar a adquirir esses competências e conhecimentos.

Uma última consequência do aumento exponencial do conhecimento e respetivas assimetrias informativas é degradação das tradicionais estruturas éticas, contidas nas religiões e filosofias sociais. Tal acontece de duas formas. As diferenças de conhecimento entre os defensores dessas estruturas e seus detratores torna difícil um diálogo profícuo, pois cada uma das partes tem de dedicar muito tempo aos conhecimentos necessários ao seu dia a dia, ficando pouco tempo para estudar e compreender os conhecimentos e conceções da outra parte. Embora estas contradições sempre tenham existido, é cada vez mais difícil que as partes em confronto partilhem conhecimentos, crescentes e que podem ser chamados a este debate. Por outro lado, fica fora das estruturas tradicionais uma pletora de peças e meios recreativos e outros conhecimentos promotores do equilíbrio psicológico, integrados no mercado económico e constituindo fontes de lucro que incentivam ao crescimento incessante desta pletora. As estruturas tradicionais parecem, por isto, tornar-se menos necessárias. Todavia a pletora comercial não foi testada pelo tempo histórico e pode ser muito menos eficaz a induzir valores éticos, podendo mesmo ser contrária a estes.

Em geral, as preocupações com as assimetrias informativas foram popularizadas por Keneth Arrow e consagradas com o prémio Nobel de 2001, para George Akerlof, Michael Spence e Joseph Stiglitz.

Desde então os conceitos relacionados de adeverse selection (má escolha do agente com que nos relacionamos para algum projeto comum, devida a falta de informação) e moral hazard (má decisão devido a desconhecermos o que está a fazer esse agente) tornaram-se ferramenta para inúmeras análise em todos os ramos das chamadas ciências sociais. Ineficiências do mercado económico e irracionalidades do sistema político têm sido flageladas por este tipo de análises, frequentemente recorrendo, também, à teoria dos jogos.

Não só as assimetrias de informação originadas por um incremento exponencial de informação, mas, também, a complexidade social resultante da implementação de todo este conhecimento e, ainda, a grande conetividade da sociedade telemática e globalizada, originaram um novo tipo de sistema social, muito aberto a inúmeras possibilidades de grandes evoluções, mas, também, muito sensível a disfunções parciais que se podem repercutir por todo o sistema social.

Nesta sociedade, o indivíduo perde cada vez mais autonomia, pois a parte do saber que pode dominar é cada vez menor, a sua interdependência dos outros torna-se maior e mais imprevisível se torna esta sociedade, cada vez mais transhumana, acentuando-se este carácter com a inteligência artificial.

Os conceitos de risk society, de Ulrich Beck e de liquid modernity, de Zygmunt Bauman. expressam a ideia da mutabilidade e imprevisibilidade desta sociedade, cada vez mais transhumana. De facto, esta transociedade, devido ao aumento exponencial de informação, tecnológica e social, bem como da conetividade dos transportes e dos sistemas de comunicação, acarreta perigosas assimetrias de informação e correspondente caos.

Alterações climáticas, crises bolsistas, luta pelos recursos escassos, exaustão de recursos, défice orçamental, desigualdades económicas crescentes, desperdício, poluição, stress profissional, angústia e ansiedade existencial, pandemias, singularidades ameaçadoras como o efeito Carrington, exclusão tecnológica, senilidade pela extensão da duração da vida, contração demográfica, acrescido risco do arsenal nuclear, são problemas hoje ampliados pelas dinâmica da transociedade, suas assimetrias informativas e conetividade, ocasionando fatores de incompreensão entre grupos sociais e de resultante caos.

O aumento da produtividade tecnológica e do conhecimento em ciência sociais tem equilibrado os fatores de caos e desorganização social e cultural, mas este equilíbrio tecno-social está em risco a todo o momento. Por exemplo, uma forma de equilíbrio económico tem sido possibilitada pelo crescimento do conhecimento financeiro e económico, traduzido em políticas de enorme expansão monetária, por ação dos bancos centrais, sem que tal tenha originado híper inflação desorganizadora. Todavia, não existe garantia que em certa altura algum desequilíbrio inesperado solte a híper inflação, tal como não se pode de forma nenhuma garantir que os fatores crescentes de caos social possam continuar a ser equilibrados pelo aumento da tecnologia e do saber em geral.

Serão possíveis iniciativas para tornar menos periclitante este equilíbrio tecno-social?

Um exemplo significativo constitui-se no campo dos eleitores e dos consumidores. Cada eleitor e cada consumidor não pode conhecer suficientemente bem a miríade de opções e de necessárias avaliações dos serviços políticos e bens comerciais que lhes oferecem. Todavia, eleitores ou consumidores podem constituir-se em grupos, cada um especializado num assunto.

Trata-se de sistemas de co-representação ou representação dinâmica em que cada indivíduo representa outros num certo assunto e vice-versa. Para garantir a eficácia e verdade destes grupos, eles devem ser abertos, possibilitando mudanças graduais de indivíduos entre grupos, assim que alguns dos grupos derem sinais de falha, de forma a assegurar que nenhum grupo se corrompe e se afasta da verdade. Neste sentido pode falar-se de democracia especializada e de consumo especializado, constituindo um processo de expansão e abertura de elites, com potencial beneficio para todos.

Trata-se duma forma original de implementação dos desígnios da democracia deliberativa (conceito que consiste em dar especial ênfase à informação no processo de deliberação democrática), sendo que desta última já existem inúmeras experiências, desde os anos setenta, sendo as mais conhecidas a assembleia constituinte islandesa, as sondagens deliberativas de James Fishkin e a atividade da America Speaks, elaborando no conceito de Júris de Cidadãos (Ned Crosby, no Jefferson Centre, nos USA) e Plannunszelle (Peter Dienel, Research Institute for Citizens Participation and Planning Methods, na Alemanha).

Um outro exemplo, contrabalançando as assimetrias informativas, será a institucionalização do benchmarking. Trata-se da deteção das melhores práticas numa certa atividade humana, usado de forma sistematizada desde os anos 70 no mundo empresarial, associada à Xerox e codificado por Robert C. Camp nos anos 80.

Estas práticas detetadas pelo benchmarking são originadas por novos conhecimentos teóricos ou empíricos que constituem inovações nas organizações. Devido ao caráter competitivo da sociedade e à tendência para acomodação e secretismo, a troca de informações que possibilita o benchmarking fica muito limitada. Instituições vocacionados para facilitar o benchmarking poderão ter largo impacto no desenvolvimento económico e social, permitindo a todos aprenderem com os melhores que, aliás, não poderão deixar de ser recompensados pelo seu pioneirismo.

Também, a educação obrigatória ao longo da vida pode constituir um fator decisivo para esbater as assimetrias informativas de todo o tipo, estando, todavia, o seu sucesso totalmente dependente da seleção dos conhecimentos considerados prioritários e meios de acesso pedagógico facilitado.

De facto, as possíveis iniciativas contra as assimetrias informativas e de promoção da transparência são muito variadas e muitas delas já existem em certa medida, limitadas por diversos fatores que podem ser minimizados, como se exemplificou.

Só a consciência cívica dos riscos caóticos da transociedade pode impulsionar medidas que evitem a rutura do equilíbrio tecno-social do qual depende a sustentabilidade das complexas sociedades atuais.

JOSÉ LACERDA DA FONSECA

Diretor Regional de Agricultura de Lisboa e Vale do Tejo, foi coordenador do Centro Europeu de Informação e Desenvolvimento da Região Oeste. Aceitou o desafio da Rosa Mecânica de debater e melhorar o Socialismo.

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