Era uma vez uma vaca

O arquétipo da Ética encontra o seu denominador no autossacrifício e na Física, onde as propriedades preexistentes de um sistema recriam-se, reproduzem-se e autonomizam-se. Desde o Paleolítico à contemporaneidade, o tempo é para a Física como a tecnologia é para a produtividade: o sistema que orquestra a sua regulação.

A tecnologia é a condição para a riqueza, pela mutação de processos que substituiu canais fluviais por ferrovias, motores a vapor por elétricos, máquinas de escrever por computadores[1]. A desigualdade existe hoje porque algumas nações tiraram partido dessas revoluções tecnológicas, enquanto outras não, e esse é parte do processo de destruição criativa, a força motriz e mordaz do crescimento, em que uma tecnologia substitui a anterior, tornada obsoleta, por ciclos constantes de inovação. Para compreender a simbologia da destruição criativa, um sábio contou uma fábula a um jovem[2]:

Era uma vez, uma família que vivia numa casa sem mínimas condições de habitabilidade. O único recurso que possuíam era uma vaca, que servia de fonte de subsistência. Um dia, um peregrino passou a noite com a família, e no dia seguinte matou a vaca antes de partir. Um ano depois, o peregrino voltou ao lugar e viu uma boa casa, e a família com melhores condições financeiras. O desespero de terem perdido a vaca fê-los perceber que podiam sobreviver a semear vegetais, e, pouco tempo depois, tinham a quantidade suficiente para vender no mercado da cidade.

Esta fábula é uma crítica a quem não aceita a mudança, mas ora que se não existissem comerciantes com excedentes no mercado para adquirir vegetais, a família teria continuado pobre[3]. Quem habita em terrenos inóspitos tende a priorizar bens imediatos, e quando as circunstâncias mudam, optam por soluções sustentáveis adicionais versus unidades de subsistência. A família perdeu tudo, mas tinha a semente, o mercado e a cidade, porque a comunidade é esse seio interdependente, recíproco, e, por vezes, intangível. Na economia moderna, a acumulação de um empregador é dependente do trabalho dos trabalhadores, pelo justo meio, no qual o sucesso de todos é entendido pelo sucesso individual, rejeitando a relação de “nós”, os provedores, a “eles”, os exploradores do bem-estar.

Um populista procura sempre esventrar a dependência do homem pelo homem através de bodes expiatórios, como é exemplo do pobre que supostamente usa os subsídios para comprar bens de terceira necessidade, contudo, um número crescente de estudos internacionais indica que as preocupações sobre o uso de transferências para esses fins são infundadas. Quase todos os estudos, sem exceção, demonstram que as transferências melhoram os resultados da educação, saúde, cultura e aliviam a pobreza[4].

Um social-democrata entende que a comunidade planifica a economia, mas em Portugal, o Estado além de planificar, garante também a subsistência das empresas, e as empresas acumulam os dividendos para muito poucos. Os apoios de reinvestimento ao lucro, apoios a mais postos de trabalho, bem como as injeções de capital público a bancos, comunicação social e clubes de futebol são exemplos do designado socialismo do limão, no qual o Estado sustenta empresas falidas, absorvendo os seus prejuízos. BPN, BES, TAP e CP, a faturação é inferior aos custos, traduzindo-se em sunk costs de retorno muito relativo.

Acresce uma visão prepóstera de investir em setores sazonais, cíclicos e de nula expansão para mercados emergentes, que embora não drenem capital público, inibem a economia de desenvolver-se de forma sustentável. Com o objetivo de captar investimento externo, o governo moveu uma campanha inebriante de incentivos fiscais e vistos gold, com o turismo e seus orbiters da restauração e imobiliário, para não falar do parasitismo dos tuk tuks. Todos estes setores e subsetores adjacentes criaram diques ao natural curso da economia, considerando as reduzidas margens de lucro, a alta volatilidade e a dependência total de contração de dívida privada. Estes, não precisam de injeções de capital público, mas de uma verdadeira reforma nos direitos laborais dos trabalhadores.

Ainda assim, como demonstra o filme The First Cow, na floresta de Oregon, onde proliferavam caçadores de peles, nasceu o sonho americano de dois jovens cozinheiros que aproveitam os recursos de uma só vaca[5]. Esta história explica que o problema não são os setores da economia em si, mas a total dependência da economia neles.

A comunidade existe para garantir a igualdade de oportunidade e planificar as linhas orientadoras da economia. A comunidade não existe para impedir a inovação, afundar capital público ou alimentar vacas sagradas. Por um lado, é fundamental definir setores estratégicos capazes de promover ciclos virtuosos de consumo diversificado, como as indústrias transformadoras agroalimentares, as renováveis, o hidrogénio, o lítio, a biotecnologia, a canábis e a exploração de recursos marítimos vivos e não vivos. Por outro lado, é importante criar uma taxa sobre os rendimentos da classe alta e média-alta, que isente os jovens, injetada diretamente para os bolsos de quem precisa, através da promoção do vale auxílio, atribuído de forma inversamente progressiva.


[1] Acemoglu and Robinson (2012) Why Nations Fail: The Origins of Power, Prosperity and Poverty (1st). New York: Crown, 529;

[2] Cruz (2003) Once Upon a Cow: Eliminating Excuses and Settling for Nothing but Success. New York. Penguin Putnam Inc.

[3] Fraser and Gordon (1994) A Genealogy of Dependency: Tracing a Keyword of the U.S. Welfare State. Vol 19, Nº2, Published By: The University of Chicago Press;

[4] Popova and Evans (2014) Cash Transfers and Temptation Goods: A Review of Global Evidence. The World Bank

[5] https://www.rogerebert.com/reviews/first-cow-movie-review-2020

Tito Norberto Santos

Gestor de Clientes no BNP Paribas.
Cristão convicto
Amante de sushi e Netflix.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s