Mulheres, o que precisam?

Antes de começar a escrever este artigo, decidi aproveitar uma das minhas redes sociais para perceber como é que era percepcionada, na minha bolha internauta, a presença das mulheres nos comentários políticos ou sociais nos meios mediáticos de grande difusão.

A resposta foi a esperada: “sub-representação constante”, “que faltam”, “tá fraco”, “que deveriam existir mais”. Ora, esta conclusão não é nova, é aliás de senso comum. Estamos habituados a ligar a televisão e a rádio e ouvir os temas fracturantes da sociedade serem comentados e escrutinados, por paineis exclusivamente masculinos. É correto? É justo? Eu respondo: não!

Porque é que uma estação televisiva chama quatro homens para comentar o feminismo? Quem luta por uma causa tão nobre como o feminismo não quer distanciamento social dos homens – para além da exigida pela crise sanitária – , quer é que também as mulheres tenham um lugar à mesa, protagonizando uma voz ativa em questões que tocam a todos. A economia, a política, a justiça não são assuntos que só digam respeito aos homens, dizem igualmente respeito às mulheres.

Não estamos perante uma questão de falta de candidatas aptas, logo torna-se óbvio que é falta de vontade.

Os meios de comunicação social, a par com a sociedade ainda muito tradicionalmente machista, são os principais culpados desta situação. No entanto, vemos agora alguns canais generalistas a apostar em nomes feministas sonantes da nossa praça pública, dando-lhes um lugar à mesa dos comentários televisivos. Se avaliarmos este assunto apenas do ponto de vista da representatividade é algo notoriamente positivo. Mas será suficiente? Do meu ponto de vista, não. Confuso?

Eu explico.

A representatividade, que é uma das lutas das mulheres, e que deveria ser também dos homens, é essencial, mas tem um grau de exigência e responsabilidade elevada . Chamar mulheres com pouca qualidade de reflexão para a linha da frente do comentário político e social, numa tentativa de apresentar mais representatividade, não é o melhor caminho e pode mesmo ser danoso para a luta feminista a médio prazo. Claro que este não é um problema que afete apenas o sexo feminino. Da mesma forma que se exige em praça pública a competência feminina, não se exige a mesma competência à masculina. Raras são as pessoas que se insurgem contra a voz masculina que, em grande parte, é medíocre

Será justo pedir um grau de exigência superior às mulheres? Diria que talvez seja hipócrita, mas a realidade tem de ser invertida. É necessário lutar pela competência de ambos os géneros, exigi-la na mesma medida a ambos. Não nivelar por baixo uns, e aplaudir outros quando se encontram em patamares iguais de mediocridade. Esquecer a ideia de que a esquerda ou direita definem a voz, porque a questão ultrapassa os ideais políticos, passando a ser bem maior do que isso.

Para além de que não devemos “nivelar por baixo”, o ponto passa também pelo caminho que queremos abrir para a frente. Sei que pode ser “estar a abusar da sorte”, mas podemos aproveitar o movimento de aumentar a representatividade para também aumentar a qualidade

É necessário chamar mais mulheres a público, dar voz a pessoas mais jovens, a pessoas que sofrem efetivamente com os problemas em debate. É suposto sabermos olhar para os temas e conseguirmos perceber o comentário que melhor encaixa neles. É suposto as pessoas reconhecerem o seu privilégio e saberem fazer análises para além dele.

Ninguém quer escorraçar os homens dos painéis, nem tão-pouco que eles desapareçam, mas é necessário apelar ao bom senso dos OCS. As mulheres têm o mesmo direito, e ocupam tão bem ou melhor, as posições mediáticas. É preciso começar a exigir rigor e qualidade aos homens, e não esconder os seus defeitos porque têm um nome conhecido na praça pública. É necessário mudar paradigmas, mentalidades, forçar a mudança que queremos ver na sociedade. É preciso empoderar a mulher.

Precisamos que os homens deixem de se sentar à mesa uns com os outros quando o tema toca principalmente às mulheres, e que aprendam a partilhá-la quando o tema toca a todos. Precisamos que os homens deixem de se considerar os supra-sumos da moral e dos bons costumes. Precisamos de dar oportunidade às mulheres de “criar a sua própria mesa” e que sejam encorajadas a fazê-lo. A sociedade precisa de deixar de imputar adjetivos como “histéricas”, “mal informadas”, “incompetentes”, “sensíveis” às mulheres. A qualidade está à vista.

Precisamos deixar de “nivelar para baixo” e quebrar os glass ceilings da vida.

A igualdade de género não se atinge nivelando por baixo; a igualdade de género é alcançada dando voz à voz competente, à voz informada, à voz inteligente, astuta e não à voz dos chavões. É uma exigência talvez injusta, sim, mas é a exigência necessária para conseguirmos as vitórias que queremos numa sociedade que é, ainda hoje, machista. Não precisamos (nem queremos!) mulheres perfeitas, artificiais, com 4 doutoramentos e que falem 10 línguas, mas queremos (e exigimos) mulheres reais, com ideias e análises próprias, que façam ouvir a sua voz com propriedade. De forma simples: que nos representem e nos deixem orgulhosas.

Inês joão rodrigues

Do lado esquerdo da vida.
Socialista. Militante da JS Braga
Jurista in the making.

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