Os dados dos manifestantes

Aqui há uns tempos só o Chega pedia demissões a torto e a direito. A prática alastrou, e numa coisa o PSD e o CDS estão a ser bem sucedidos: roubaram o soundbite ao Ventura e empurraram os 10 segundos dele para o fundo da peça jornalística. Parabéns. Mas isto tem um preço, e quem o paga é o país. Entre o ataque de uns e a defesa a que os outros são obrigados, o debate público fica ainda mais pobre do que já é. A discussão sobre as soluções é secundária para esta direita.

A questão dos dados cedidos pela Câmara Municipal de Lisboa é grave e a responsabilidade política foi assumida prontamente. Mas responsabilidade política não deve ser confundida com culpa ou com intenção. É impossível acreditar que alguém que está ao leme de uma organização com a extensão da CML (quase 9.500 funcionários) tenha conhecimento de todos os procedimentos que são praticados.

Kesnia Ashrafullina (uma das pessoas que organizou a manifestação e que viu os seus dados partilhados)  descobriu o que se passou porque ninguém o tentou esconder: a Embaixada da Federação da Rússia vinha em CC nos e-mails que recebeu da CML.Se houvesse consciência da sensibilidade dos seus dados, bastaria pôr estes endereços de e-mail em BCC e ainda hoje ninguém saberia de nada. O vício aqui é claramente o do desleixo.

Se não percebermos isto, andaremos a discutir problemas que não existem até ao fim da vida natural deste ciclo noticioso.E assim não nos focamos nas questões que são realmente importantes. E é preciso fazer as perguntas certas para garantir que as nossas instituições aprendem com isto.

Três questões importantes:

  1. Enquanto sociedade, temos uma relação negligente com os nossos dados pessoais. Esta característica deixa-nos muito mal preparados para a economia digital. Data is the new oil: convém ligarmos a quem tem os nossos dados, e ao que fazem com eles. Governo e empresas têm de adotar políticas de dados exigentes e de investir fortemente em infraestrutura digital segura que previna e detecte atempadamente ataques cibernéticos.
  2. A Administração Pública tem de estar consciente dos procedimentos que segue e da lei em que se baseiam. Não se pode tratar a causa pública com base no improviso. Infelizmente a nossa cultura de funcionalismo público continua a tender para o lema do “mas sempre se fez assim”. A democracia exige outra atitude. Num estado de direito, a burocracia importa. As suas decisões e as acções têm de ser transparentes e justificáveis.
  3. Os média estão a contribuir para o empobrecimento acelerado do debate público, não só pela forma como ampliam as declarações mais bombásticas e abafam as mais inteligentes,mas também pela falta de escrutínio sério ao poder. Como Ksenia Ashrafullina disse ao Politico, “I told Portuguese journalists about this in January but nobody wanted to report on it”. O normal seria algum desses jornalistas fazer aquilo que o jornalismo deveria fazer: investigar, falar com os envolvidos, dar a notícia. Mas ela só surge agora, a meses das eleições. Este pormenor fica de fora das notícias em Portugal, mas seria importante perceber quem menosprezou a informação e porquê. Sem jornalismo independente e eficaz, não há democracia que resista.

Estas questões não são só para o Presidente da CML, nem poderia ele resolvê-las sozinho. São para todos nós, oposição incluída. Querer transformar este debate num debate sobre Fernando Medina é um péssimo serviço que prestam a Lisboa e ao país. O Presidente da Câmara assumiu politicamente o erro, pediu desculpa em público e em privado aos afectados, mandou fazer uma auditoria interna para avaliar os danos e alterou os procedimentos para que não se repitam erros desta natureza. É uma atitude equilibrada, humilde e focada na resolução dos problemas. É esse aliás o estilo a que Medina nos tem habituado.

Tomé Ribeiro gomes

Estudante de História, Estudos de Segurança e Defesa. JS Lisboa.

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