O fim do SPD ou uma oportunidade de recomeço?

Chegando ao fim de 16 anos de liderança de Ângela Merkel, a Alemanha enfrentará as eleições federais mais incertas dos últimos anos. Merkel foi sempre uma mulher de consensos e concertações, quer ao nível interno como ao nível externo. No plano nacional, Merkel liderou três governos de coalizão com os sociais-democratas do SPD em 2005, 2013 e 2017 e, ainda, um governo com os liberais do FDP em 2009. Colocar o adversário político por perto foi, desde sempre, a estratégia da chanceler que logo no dia das eleições federais de 2005, após a vitória eleitoral, desafiou o SPD de Schröder a ceder e a negociar com a CDU/CSU. Uma cedência, que resultou em muitas outras, ao longo dos anos, e que levou o SPD pelo “caminho da servidão”.

Ângela Merkel, foi uma mulher que demostrou, desde o início, a sua capacidade de liderança e de diálogo, ao liderar um partido altamente conservador, católico e desde sempre dirigido por homens. Uma candidata, mulher e protestante, indo contra as tradições do próprio partido, mas que mesmo assim avançou sem rodeios. Iniciou a sua candidatura com índices de popularidade muito baixos e com uma inexperiência governativa bem clara, tendo uma campanha marcada pela sua fraca prestação nos debates televisivos, havendo episódios caricatos como a sua falha distintiva entre rendimento bruto e rendimento líquido. Foi ainda criticada, ao longo da sua campanha, por defender impostos fixos, numa Alemanha que sofria inúmeras dificuldades económicas, com a dívida pública a aumentar, o poder de compra a diminuir e o desemprego a crescer. O mandato altamente desgastante de Schröder, principalmente a partir de 2002, acabou por descredibilizar um dos partidos socialistas mais importantes e antigos da Europa. A sua política de flexibilização laboral, de destruição do Estado Social e da sua visão de crescimento abrupto da economia alemã a curto prazo, levou a que as políticas a abordar pelo partido fossem incoerentes ideologicamente e que o SPD nunca mais fosse o mesmo, em termos de expressão popular e eleitoral.  

Em 2005, fruto da bipolarização eleitoral, as eleições foram altamente imprevisíveis tendo a CDU/CSU alcançado 35,17% e o SPD, cerca de 34,25%. Em sondagens, a CDU/CSU esteve a uma diferença de 20 pontos percentuais de diferença do SPD, tendo havido, inclusive, uns dias antes das eleições a indicar um avanço dos conservadores mais realista, de cerca de 5% dos votos. Quanto ao SPD, previa-se uma derrota pesadíssima, mas que terminou sendo equilibrada nessas eleições. Já nas passadas eleições federais de 2002, os resultados tinham sido “taco a taco” com o SPD a vencer por apenas 0,01% dos votos. Na altura, o SPD venceu com 38,52% contra 38,51% dos votos.

Contrariamente ao que muitos analistas ditam, a decadência do SPD não se iniciou em 2005, mas sim em 2002, quando mesmo vencendo as eleições, o Governo de Schröder avançou com um pacote de reformas antissociais que mancharam a história e o legado do SPD no movimento social-democrata. O aumento da idade de reforma, os cortes no investimento da Saúde e a redução da duração do subsídio de desemprego, foram apenas alguns exemplos de políticas que descredibilizaram totalmente o SPD e fizeram com que os eleitores “alvo” do SPD, olhassem para partidos emergentes como novas soluções de voto.  

Nessa altura, o eleitorado de centro-esquerda começou a ficar sem voz, havendo um vazio estratégico à esquerda, que necessitava de ser ocupado. O PDS, oriundo da Alemanha Oriental, acabou por ganhar terreno, tendo já nas eleições europeias de 2004, apenas dois anos depois, conquistado um resultado histórico de 6,1%, elegendo 7 eurodeputados. Fruto das circunstâncias, de modo a criar uma frente comum, o PDS juntou-se com o WASG, um movimento político de dissidentes do SPD contra Schröder, para juntos irem a eleições com um programa anti austeridade. Na altura, os partidos basilares do futuro “Die Linke” alcançaram um resultado extremamente positivo de 8,71%.

Em 2005, depois da junção incrédula do SPD à CDU/CSU, o SPD nunca mais voltou a alcançar a popularidade antes alcançada. Quatro anos após a conjunção do “bloco central”, o SPD passou de 34,25% para 23,03% dos votos (de 222 para 146 assentos parlamentares). Depois do desaire eleitoral em 2009, o SPD ficou de fora dos acordos governamentais, conquistando terreno ao longo dos quatro anos seguintes, alcançado nas eleições federais de 2013, cerca de 32,2% (mais 9,01% do que em 2009). Como as lições acumuladas não serviram de exemplo, o SPD demonstrou-se disponível para realizar acordos de coalização pós-eleitorais com a CDU/CSU em 2013. Mais quatro anos passaram e o SPD não foi além dos 20,51%, em 2017, tendo a derrota mais pesada desde o início do milénio. Como a lição, mais uma vez, não foi aprendida, o SPD voltou a realizar acordos com a CDU/CSU, em 2017, mesmo com uma grande instabilidade interna dentro do partido.
No próximo mês de setembro, há eleições federais na Alemanha e as sondagens apontam que o SPD alcance entre os 16% e os 19%, resultado mesmo assim mais positivo do que os 15,80% obtido nas eleições europeias de 2019.

Em ascensão está o Die Gruünen (os Verdes), que estão em crescimento, depois de ultrapassarem, pela primeira vez, o SPD nas europeias de 2019. Neste momento, o Die Gruünen, estão  a disputar ferozmente as eleições com a CDU/CSU, apesar da ligeira vantagem da última sondagem para a coligação de centro-direita. Nas passadas eleições federais de 2017, o partido alcançou apenas 8% dos votos, tendo num curto espaço de dois anos, alcançado os 20,53% nas eleições europeias de 2019. Segundo sondagens recentes, do dia 11 de agosto, do canal RTL, o Die Gruünen atinge neste momento os 20% dos votos contra os 23% da CDU/CSU.

Apesar de nas passadas eleições regionais de junho da Alta Saxônica, a vitória ter sido esmagadora para CDU/CSU com uma vitória de 37,1% contra os escassos 5,9% dos Die Gruünen, o Die Gruünen consegue arrecadar um forte apoio popular nas grandes cidades alemãs. Há mesmo várias sondagens que indicam a vitória para o Die Gruünen, derrotando o histórico partido alemão.

Caso esse resultado venha a acontecer, o Die Gruünen poderá ser o primeiro partido ecologista europeu a vencer eleições nacionais, num exemplo que poderá se seguir por outros países, mudando todo o paradigma eleitoral à escala europeia.
Esta poderá ser a salvação do SPD se pretender ganhar terreno e espaço com uma nova agenda de políticas e políticos ao longo dos próximos anos.  Com uma eventual vitória do Die Gruünen e com um resultado residual do SPD, poderá ser possível uma maioria política que possa dar um novo rumo à Alemanha. Este poderá ser o trunfo do SPD para se renovar ideologicamente, agindo com moldes diferentes e com agendas inovadoras. Um partido que crie uma nova dinâmica de atuação, defensora de um Estado Social forte e capaz, que valorize a produção e a industrialização sustentável e que crie um sistema fiscal mais justo e equitativo.

Uma Alemanha possível e diferente, que poderá ser o início de uma grande mudança no paradigma social, político e económico de todo o espaço europeu.

Diogo Martinho Henriques

Secretário-Geral da Juventude Socialista da Madeira. Estudante de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa

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