Uma Geração do (desen)rasca

Desde o 25 de Abril conquistámos vários direitos, liberdades e garantias que antes não tínhamos. Ganhámos azo ao desenvolvimento, ao progresso individual e coletivo, como igualmente, mais tarde, a uma abertura europeia e internacional que potencializou o crescimento do país ao longo da década de 80 e 90. Apesar de todas estas características positivas da nossa história, as coisas começaram a se complicar já no final do século XX, com tendência a piorar ao longo do início do novo milénio, tal como aconteceu. A crise do subprime foi a “gota de água” para uma geração motivada em “vingar” na vida – uma ruptura total na estabilidade das novas gerações.

Esta é uma geração que continua a ficar conhecida como a geração (desen)rasca. O crescimento evolutivo foi rompido, sendo esta a primeira geração que vive(rá) pior do que a geração dos seus pais, não em termos de conhecimento e desenvolvimento, mas ao nível económico-financeiro. Torna-se premente encontrarmos novas políticas que sejam o garante do desenvolvimento, da industrialização e do crescimento económico do nosso país, sempre de forma sustentável em toda a linha.
Entristece-me de olhar para um país que ainda não apresenta um futuro claro a uma geração. Uma geração que viverá a segunda crise das suas vidas, num curto espaço de uma década, num país de enormes potencialidades, mas com carências de novas políticas. Potencialidades essas que só poderão ser executadas por eles mesmos – aqueles que lutam e sofrem diariamente pela inferiorização da sua Geração. Precisamos de uma nova geração de políticas e de políticos que reformem o país, tornando-o mais competitivo e sustentável, altamente industrial, principalmente nos meios tecnológicos e ambientais.

O rendimento médio de um jovem de 24 anos é, atualmente, de apenas 13 euros acima do Salário Mínimo Nacional, ou seja, de uns escassos 678€. De facto, 13 euros de diferença, poderão ironicamente induzir no mesmo número que conhecemos por ser o número de todos os “azares”.

“Azar” é uma palavra que poderá representar todas as justificações possíveis para o nosso estado atual. Um Portugal de “azares” no crescimento económico prometido, de “azares” nos sucessivos fracassos de competitividade europeia, um Portugal de “azares” num país que tarda ao não aprender a lição da âncora – sem iniciativa privada abundante, o reforço do Estado Social não consegue ser constante.
Dez anos depois das grandes movimentações sociais contra a austeridade, continuamos com uma geração que não consegue sair da “cepa torta”, que “azar”.
Um país de “azares”, onde aquilo que se discute não são os “azares” do país, mas a “mesquice” político-partidária, para não falar, ironicamente, da típica discussão de esfera ideológica. Portugal é um dos países mais estáveis da Europa ocidental em termos políticos, onde o constante consenso de ideias e de valores acabam por representar a maioria da esfera política, da esquerda à direita, na quase totalidade das questões. Como referia José Adelino Maltez, “existe muito folclore de oposição, mas na essência, estão muitas vezes de acordo”, assim o disse em 2016, e reafirmo-o, agora, em 2021, numa expressão tipicamente atemporal.

Folclore é uma arte tipicamente portuguesa que reflete uma expressão cultural num formato de atuação circular. Um círculo cultural que podemos igualmente simbolizar no círculo político. Um círculo de contraditórios na ação, mas de consensos na razão. Um círculo de discussões acesas por palavras ou expressões, mas de largas maiorias em análises semelhantes nas construções. Um círculo fechado, mas quase todo ele homogéneo. Um círculo com pequenas janelas e com poucas portas. Este círculo é Portugal, um país que não pode continuar assim.

Portugal, um país de contraditórios acesos, mas de falta de consensos constantes. Um país onde o discurso do centro-direita ao centro-esquerda, abrange quase todos os mesmos anseios, com caminhos idênticos no modo de atuação, mas caminhos “sofisticamente” diferentes na persecução. A falta de cooperação, leva-nos a uma divisão que termina na mais pura competição. Uma competição, que felizmente foi conquistada pela “reação”, mas que nos impossibilita de termos um futuro com algum tipo de expressão.  

Uma expressão social e económica que tem sido cada vez mais transcendida para uma outra expressão, uma expressão menos desejada, a expressão populista na ação política – ficando estes a tecer todo um vazio estratégico plural e transversal. Tenho pena de que a política transcenda o campo dos democratas e enverede por caminhos pouco moderados na sua expressão de atuação política. Os extremismos foram sempre fontes de instabilidade, nas quais correspondem fontes desnecessárias e antagónicas ao rumo que o nosso país precisa. Contudo, a culpa deste vazio não é meramente daqueles que o preencheram, mas sim daqueles que ao longo de anos o criaram, descredibilizando o “modus operandi” das nossas instituições governativas. Enquanto revisionista e seguidor do pensamento político de Mário Soares, termino frisando com uma expressão de longa data, mas que declara com precisão o meu estado de espírito – “Para salvar Portugal é indispensável que se dê uma verdadeira acalmia nos debates de tipo partidário e político, e que nos esforcemos todos por entrar numa política de diálogo e de concertação”.

Diogo Martinho Henriques

Secretário-Geral da Juventude Socialista da Madeira. Estudante de Ciência Política no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas de Lisboa

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