“Eu avisei!”

As tragédias clássicas e a mitologia encheram-nos de referências de oráculos proféticos que deixaram avisos claros sobre o futuro, ignorados por todos (ou quase). E Ana Gomes, há precisamente um ano, deixava claro aos Socialistas que passar um cheque em branco a um segundo mandato de Marcelo Rebelo de Sousa iria deixar um Presidente de costas largas para servir a sua própria agenda e a dos seus.

Na altura das eleições presidenciais, António Costa, apoiado por outros socialistas como Ferro Rodrigues e Carlos César, optou por não comprometer o Partido num apoio, neste caso, a uma candidata do seu próprio campo ideológico. Deixou-se, em alternativa, à consideração dos militantes a liberdade para apoiarem quem quisessem, fosse uma candidata socialista ou, vá-se lá saber porquê, outras opções à direita e a outros tipos de esquerda.

E os socialistas do PS, que apoiaram Ana Gomes, deixaram com ela os avisos de que o Presidente dos afetos, além do seu ar de pateta de quem parecia que queria agradar a todos para por todos ser amado, tinha por detrás da pele de cordeiro um lobo pronto a sacar as garras de fora. O projeto de Marcelo para destruir a Geringonça começou ao não exigir acordos escritos e nem disponibilizar-se, em qualquer momento para mediar conflitos, negociações e promover acordos. Ao invés, à primeira oportunidade que teve para dissolver o parlamento, fê-lo contra o entendimento de todas as forças políticas ao centro e à esquerda que poderiam, numa segunda oportunidade, alcançar um acordo e manter a estabilidade governativa. A meio de uma crise pandémica, perante a chegada de fundos comunitários para executar o PRR e retardando a aprovação de um Orçamento de Estado para assegurar a governabilidade do país, Marcelo preferiu dissolver o Parlamento, com a clara consciência de que não era o melhor para a República. Disso é prova que receba, em Belém, um dos três candidatos à liderança do PSD, o seu favorito Paulo Rangel, de modo a, certamente, acertar a estratégia e o calendário que melhor lhe convier.

Este desplante só é possível porque Marcelo faz o seu último mandato, com 60,7% dos votos, com o apoio tácito do Partido Socialista. Marcelo é um político tão exímio, tão maquiavélico, tão brilhante que conseguiu operar a sua estratégia com o conluio daqueles que ele próprio queria destruir. Marcelo é o grande obreiro do atual estado da Geringonça, da crise política e da suspensão do aumento do salário mínimo, das pensões, das creches gratuitas, do maior investimento no SNS e de todas as medidas adiadas do Orçamento de Estado que iam melhorar a vida a dez milhões de portugueses. E o crasso e evidente erro de o “apoiar” foi o maior pecado de socialistas como Costa, Ferro e César.

É mais um momento em que Ana Gomes pode dizer, com toda a legitimidade que a sua inteligência e visão lhe permitem, “Eu Avisei!”

Miguel Partidário

Lic. em Ciências da Comunicação. Ator, Encenador, Escritor e Professor de Multimédia numa escola profissional. Presidente da JS Oeiras, da ala mais à esquerda do PS, para além de progressista, federalista e eco-socialista.

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